Capítulo 1

Dizer, logo na primeira linha, que não há como não simpatizar com Luis Gustavo é uma fórmula descarada de tentar ganhar o carinho do leitor para esse rapaz que agora passeia pelo supermercado ouvindo em seu Ipod Ella Fitzgerald e Louis Armstrong cantando “Cheek to cheek”.

Já passa da meia-noite, a hora que Luis Gustavo mais gosta de fazer compras. Pelos corredores vazios do supermercado, ele desliza distraído, preocupado muito mais com a correografia que há meses ensaia com o carrinho do que com as compras que veio fazer.

Num rodopio, Luis Gustavo passa a frente do carrinho e apenas com um dedo o vai puxando num passo cadenciado e elegante, até lançá-lo subitamente para frente. Então, quando já parecia que o carrinho se perderia, desgarrado, a mão firme o agarra e o faz girar duas vezes e o lança novamente à frente, mas dessa vez, Luis Gustavo vai a seu lado, o conduzindo quase sem tocá-lo, enquanto em rápidos movimentos vai atirando um ou outro produto no carrinho.

E a dança prossegue, o improviso acrecentando novos passos e movimentos à coreografia que a cada visita ao supermercado vai se tornando mais complexa. Quem sabe Luis Gustavo imagine transformá-la em uma cena dos roteiros de TV que escreve ou simplesmente a guarde ciumentamente para si mesmo e Beatriz, quando calha de fazerem compras juntos, e ela o assiste com uma expressão de divertida censura que só o estimula, ele o louco, ela a certinha, o casal perfeito, juntos há quase dez anos, sem nunca terem se casado, cada um morando em seu apartamento.

Sim, dançar com carrinhos de compras em supermercados quase vazios é hoje um dos prazeres de Luis Gustavo.

Porque são muitos os prazeres de Luis. Se quisesse ser pedante, diria que ele é um hedonista, mas não é bem assim. Não é que Luis busque o prazer; é o prazer que parece encontrá-lo em toda parte. Luis tem com o mundo uma intensa relação sensorial, e ainda que desde muito cedo tenha desenvolvido o gosto pela literatura que acabou de fazer dele um roteirista, sempre teve uma facilidade natural para as atividades físicas. A dança, a música, o surf chegaram à sua vida antes dos livros, que vieram por acréscimo e não como uma espécie de compensação ou refúgio das muitas dificuldades da vida infantil.

Na verdade, Luis Gustavo nunca se decidiu se queria ser Gene Kelly ou Fred Astaire, muito antes de se apaixonar por Rubem Braga.Em sua memória, a lembrança de seus pais dançando no imenso salão de seu apartamento na Avenida Atlantica se associou para sempre a uma sensação de felicidade idílica. Depois, quando seu pai morreu de um infarto súbito, sua mãe o ensinou a dançar todos ritmos do mambo ao tango, sem esquecer do rock and roll e o samba, e o estimulava a povoar aquele salão com festas quase semanais para seus amigos. Assim Luis tornou-se exímio dançarino: dançava tudo, qualquer coisa, muito bem.

A música, a dança e o cinema sempre fizeram parte do universo dos Magalhães Dantas e era com o prazer exibicionista dos dançarinos que Luis fazia do carrinho sua Cid Charisse (ou hoje seria Audrey Hepburn?) para o divertido espanto do operador das câmeras de segurança ou de um algum raro passante.

E quem o visse assim dançando com um carrinho de compras num supermercado à meia-noite não teria a menor dúvida da felicidade de Luis Gustavo. E haveria de simpatizar com ele de imediato, como espero que tenha acontecido com você, leitor. E naquela noite aconteceu com Marina…

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