Capítulo 2

Marina…Uma mineira chamada Marina. Nome é destino? Não sei, mas nesse caso, a ironia não é acidental: a escolha da avó e madrinha, a pretexto de homenagear antepassados, escondia também a nostalgia de um tempo que julgava o mais feliz de sua vida. Marina era sua primeira e tão desejada neta, depois de uma sucessão quase tediosa de homens.

Muito se fala da mulher carioca, da gaúcha, da baiana, mas pouca justiça se faz à beleza das mineiras. Mas quem duvide desse tipo de beleza tão característico, basta olhar Marina para descobri-la em toda sua singularidade. Alta, esguia, os cabelos grossos e tão negros quanto os olhos amendoados, a pele cor de cobre, Marina tem os volumes e contornos que se atribuem a Minas, mas em proporções tão exatas que se de pedra fosse, pareceria esculpida por mão de artista e não pelo acaso das chuvas e dos ventos.

Reservada, discreta, quase lacônica, mas muito direta nas poucas palavras, Marina é mineira na forma e no conteúdo.

Nem por isso sua paixão pelo mar é menos verdadeira, mera herança dos caprichos da avó. Ao contrário, é a expressão de um profundo e inato amor pela vida e os mistérios da sua origem. Sem querer, Dona Urbana acertou com o nome a essência da neta.

Criada entre Minas e o Rio, de familia grande e rica, desde cedo, Marina buscou essa intimidade com o mar. Aprendeu a velejar, a mergulhar, a surfar e logo se encantou com os seres e paisagens marinhas: tartarugas, arraias, golfinhos, polvos a infinidade colorida dos peixes, navios naufragados, corais. A menina contava os dias à espera das férias e assim que teve discernimento suficiente para responder à estúpida pergunta dos adultos “O que você vai ser quando crescer?”, não vacilou mais: “Bióloga marinha”. E assim foi.

Com meticulosa perseverança, Marina planejou viagens e estudou por conta própria. Agora, aos 23 anos, cursa os útlimos semestres de Biologia Marinha, no Rio, e já conhece todos os mares do mundo: Bali, Havaí, Califórnia, Austrália, África do Sul, Grécia, toda a costa brasileira.

Há pouco tempo, se mudara da Barra para o antigo apartamento da família no Posto Seis e passara a surfar no Arpoador. Já conhecia Luiz Gustavo de vista e sabia que não escapara ao seu olhar embevecido. Mas só agora, ao vê-lo dançar com o carrinho de compras sentiu por ele um sentimento indefinível, mas que podemos chamar de carinho, aquele carinho com que as almas generosas retribuem aos que as fazem rir. E ela ri, sem que Luiz Gustavo sequer se dê conta, tão concentrado está em seu delírio dançante que o traduz tão perfeitamente.

Que seja Marina a ler essa tradução e a decifrar significados que certamente escapam ao próprio autor, é desses acasos que nos fazem pensar em Deus, em destino, em irônicos cupidos. Porque amanhã, quando de novo se esbarrarem na praia, Marina já olhará Luis Gustavo com outros olhos e isso fará toda a diferença para esta história que, de outro modo, talvez sequer existisse.

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