Capítulo 3

Mas nessa noite, Luis Gustavo ainda é todo Beatriz.

Ela viajara para Espanha na noite anterior, convidada para criar os figurinos do próximo filme de Almodóvar. Ele estava feliz por ela. Há dez anos estavam juntos – sem nenhum compromisso explícito. Beatriz simplesmente ignorava as frequentes escapadas de Luis Gustavo. O que uma mulher comum chamaria de imaturidade, Beatriz preferia ver como independência. Porque ela precisava disso, desse espaço de manobra para cumprir seu objetivo: alcançar a segurança e o conforto que jamais tivera e acreditava ser o que de fato importa. Sabia do seu talento e tudo que não queria era um homem que competisse com ela ou a reprimisse, por insegurança ou ciúme. Com Luis Gustavo podia contar com atenção, o carinho e a generosidade dele – tudo isso combinado a sexo bem feito.

No fundo, achava que ela e Luis Gustavo era idênticos, mas faltava a ele ambição. Sempre tivera tudo com facilidade, sem nem precisar querer. Ela, ao contrário, sempre precisara lutar por cada coisa conquistada. A família, se não ajudava, às vezes atrapalhava. Filha da união fortuita de dois jovens típicos dos anos 70, quando vagos ideais eram embalados por muita droga e rock and roll, Beatriz nunca teve exatamente uma família. O pai logo tornou-se um punhado de fotos que ela soube não odiar, e a mãe, apesar de todos os esforços genuínos para dar a Beatriz o básico, sempre foi mais amiga do que mãe, saltando de um emprego para outro, de uma amor para outro, tomando apenas o cuidado de não engravidar mais uma vez e não deixar faltar comida em casa. Era, enfim, alegre e carinhosa como costumam ser os desajustados.

Beatriz, por um pragmatismo inato, logo aprendeu a gostar da mãe que tinha e a vê-la como de fato era, uma irmã, às vezes mais velha, às vezes mais nova. Até hoje, a cinquentona Laura se esforçava para parecer o mais jovem possível, barganhava como uma criança em troca de peças dos figurinos que Beatriz criava e a crivava de perguntas sobre os próximos capítulos das novelas e as novidades e fofocas das celebridades da TV. E, ainda que não se interessasse de fato por nada disso, Beatriz sempre sabia de tudo e contava com prazer para sua mãe no apartamento de quarto e sala em Copacabana que comprara para ela há alguns anos.

Quando conheceu Luis Gustavo nos estúdios de TV, ele já era o que é até hoje, um talentoso assistente de roteiro de quem todos esperavam mais, e ela uma simples estagiária, recém-chegada àquele mundo onde tudo era ilusão e vaidade. Apesar de não ser exatamente bonita, Beatriz é uma personalidade exuberante e quase irresistível quando decidida a tal. Falsa magra e falsa alta, não foram poucos os que a disseram parecida com Kate Moss – ainda que ela deteste a comparação e a personagem e intima e secretamente cultive Audrey Hepburn como modelo seu. E, mesmo que não se dê por satisfeita, elegância, apuro e sofisticação se tornaram já a marca de seu trabalho de figurinista. A ponto do Brasil ter finalmente se tornado pequeno para ela.

No dia em que recebeu o convite de Almodóvar, antes mesmo de contar para Luis Gustavo, Beatriz deitou-se no chão de seu apartamento no Posto Seis e chorou, sob a cálida luz do crepúsculo. Ela conseguira! Agora talvez pudesse começar a pensar em ser mãe.

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