Capítulo 4 7/8

Luis Gustavo mora num três quartos amplo, no ultimo andar de um prédio antigo. Há uma brisa q vem do leste, promessa de boas ondas de manhã. Luis Gustavo está de férias. É a pré-temporada de “Copacabana”, o seriado que ele ajudou a idealizar e em que trabalha como roteirista-assistente há oito anos. Um sucesso – nacional e internacional. Sentado ao piano, ele pode ver o mar quase negro de tão azul contrastando com as riscas brancas da espuma das ondas rebentando na beira. Sem querer, como alguém que devaneia, Luis vai tirando no piano uma das composições mais famosas de seu pai, “Posto Seis”, e a vai decompondo e recompondo, num improviso lento e distraído.

Beto Lins foi desde muito cedo um ícone carioca que a morte prematura só fez eternizar. Músico, compositor, cronista, boêmio, Beto foi parceiro dos grandes da Bossa Nova e transitou pela Jovem Guarda e a Tropicália, mas sem nunca aderir integralmente a nenhum movimento. Como cronista, retratou como ninguém um Rio mutante e efervescente, de constrastes cada vez mais violentos, mas sempre idílico ao seu olhar. Seu casamento com Maria Augusta Magalhães Dantas foi um acontecimento inesperado e de proporções olímpicas. Filha do banqueiro com fama de mecenas, Augusta era musa por vocação, merecimento e interesse. Lindíssima, culta, talentosa, herdara da mãe o dom de receber e brilhava nas frequentes festas que a familia oferecia e onde se misturavam boêmios, artistas, políticos, empresários, aventureiros de todo tipo e gente simplesmente bonita e disponível.

Quando Beto e Guta se descobriram apaixonados, logo se casaram numa cerimônia discretíssima, restrita a poucos amigos e parentes – para horror das duas famílias e surpresa de todos que esperavam uma festa suntuosa e inesquecível e uma união fugaz. Era na verdade o prenúncio de uma relação prazerosamente voltada para si mesma até o fim inesperado e doloso. Em quase dez anos juntos, não houve sequer um dia em que Guta não ouvisse de Beto um “eu te amo” ao acordar.

Se o casamento foi rápido e discreto, a lua-de-mel foi longa. Por oito meses, os dois vagaram pela América e a Europa, sem pressa e nenhum outro compromisso senão divertir-se. Na volta, instalaram-se no imenso cobertura da Avenida Atlântica, no Posto Seis, onde Augusta vive até hoje. Seguiram-se mais dois anos muito intensos, de viagens e festas que culminaram no desejo de ter um filho. Mais ou menos um ano depois nascia Luis Gustavo, desejadíssimo, lindo e risonho. Enfim, uma infância cheia de felicidade e uma só tristeza: a morte do pai.

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