10 de abril de 2000
Acaso e vontade

A última vez que a viu, foi às vésperas do Natal. Ele descia correndo as escadarias de acesso à plataforma da estação, pois ouvira a chegada do trem e não queria perdê-lo. Então, pela fresta na parede que separa a plataforma da escadaria, a viu em um dos vagões da composição.

De relance, mas inconfundível de tão afeita a seus olhos.

Estacou na escadaria vazia, o coração sobressaltado. Caberia a ele decidir, nos exíguos segundos que lhe sobravam antes que os vagões despejassem uma multidão escada acima, se haveria ou não o encontro. O acaso, esvaziado da inocência, se confrontava asperamente com a vontade.

Naqueles segundos cabia o mundo. Há sete anos quase, tudo começara num encontro quase fortuito no metrô. "Quase" porque daquela vez ele também a vira primeiro embarcar em um vagão diferente do seu e, na estação seguinte, forjou um encontro casual, trocando de vagão.

Sete anos - dois, três, quatro segundos. Mas desta vez, não saberia o que dizer: eram como um vaso partido em mil pedaços. Há sete anos, havia o vigor da novidade carregada de esperanças. Agora, seria preciso avançar contra a densa e obscura massa de ressentimentos e frustrações que se acumulara entre os dois. "Não", decidira o corpo, arrancando do chão a alma atônita. No amor é "para sempre" ou "nunca mais" - não há meia medida.

Driblou as primeiras pessoas que já começavam a tomar a escadaria e correu para o vagão mais próximo. Só não soube resistir à tentação de vê-la passar, mais uma vez, talvez a última; de contemplar de novo aquele corpo que amara. E era também seu jeito de oferecer-se de volta ao acaso: se ela o visse, talvez tudo se invertesse. Por instantes, ela sumiu, tomada pela multidão.

Quando deu por si, restara apenas ela na plataforma - nunca poderá saber porquê exatamente - parada, indecisa sobre que rumo tomar. Pensou ver no rosto dela traços de dor.

As portas do vagão permaneciam abertas, o trem parecia nunca partir e ela continuava lá, parada, a uns poucos metros dele, sem reparar que ele a olhava. Ela não se virava para vê-lo.

Finalmente, a sirene soou e as portas se fecharam. Tocou com os dedos o frio metal da porta e continuou olhando-a afastar-se até o vidro converter-se, na escuridão do túnel, em súbito espelho: não havia lágrimas em seus olhos.