8 de maio de 2000
Nova York

A Inglaterra dizia ser um império onde o sol nunca se punha. Nova York possui ruas onde o sol nunca chega.O orgulho da cidade transparece na arquitetura, mas é sobretudo no olhar das pessoas que ele se mostra: esperança, ilusão, amargura brilham indistinguíveis nesses olhos carregados de desejo. A uni-los, o evidente orgulho de ser nova-iorquino, tão evidente em cada prédio - e que escorre das paredes e flui incessante pelas ruas há séculos já. Homens e mulheres continuam a dar seu sangue, seu suor, o calor de seus corpos, o melhor de seu espírito e seus melhores dias para construir esta cidade como um monumento à vitalidade humana - este ímpeto que pode parecer insano e assustador ou pode de fato sê-lo, mas que é, no fundo, a razão de ser da própria consciência, dessa vontade inata e incontrolável de conhecer e construir que nos levou a criar esta segunda natureza que é a cultura - toda cultura, qualquer cultura.

Quem sobe ao Empire State Building - ao menos no meu imaginário o ponto mais alto que o homem já ergueu, ícone supremo desta Babel de mais de oitenta linguas se entrecruzando no ar em sonoridades impensadas - quem sobe lá e olha à volta, percorrendo sob o vento mais frio dos lugares altos os quatro cantos do terraço que domina a estrategicamente toda a paisagem - terá a mesma impressão de estar diante de uma magnificência inédita em toda a história da humanidade. E não poderá conter a excitação reverente que nos toma, capaz de nos arrancar lágrimas secretas ou gargalhadas de quase êxtase. That`s New York - e tudo à tua volta é humano e resiste com bravura ao tempo que tudo devora. That`s NY - e de tão terrivelmente humana, faz pensar em Deus.

Então o coração descompassado não consegue conter a pergunta que lhe floresce no espírito incandescente: Qual o sentido disto? O que afinal tudo isto quer significar? Por quê - e, sobretudo, para quê? - gente de sucessivas gerações escolhe se dar a esta cidade, anônimos tijolos, soma imensurável de ínfimos pedaços? Ganância, poder, altruísmo - nada disso explica, sentimentos periféricos girando em torno do mistério.

Não sei - eu tambem não sei... Ontem, coisas de Nova York, um homem escreveu muito alto nos céus, usando a condensação do ar que o calor do motor produzia: WOW - que para eles soa "uau". No Central Park, ao menos, ninguém pareceu sequer se dar conta ou admirar-se. Eu vi - e só teria a dizer o mesmo: uau.

Não sei, eu tambem não sei, o que tudo isto significa, mas tenho minhas teses: acho que é nossa paixão - incessante, incansável e insaciável - que alimenta as estrelas. Vivemos, amamos - construímos e destruímos cidades - para com nosso calor, alimentar as estrelas. E só.