12 de junho de 2000
Dia dos ex-namorados

Todo ano eu insisto nas mesmas teclas: por que não criam um dia dos ex-namorados? Nada contra o dia dos namorados, claro. Há nesse dia uma inocência irresistível, vigorosa, de primeiro amor. Presentear alguém nesse dia nem que seja com uma flor - ou sobretudo com uma flor! - e seja lá quem for: amante, mulher, amiga, namorada - é dizer que esse nosso amor ainda viceja intenso como no primeiro dia, que há um fogo que nos ata, insolúvel e te faz amante, mulher, amiga, namorada, tudo.

O dia dos namorados é isso: o dia de se viver a ilusão de quem alguém pode ser tudo.
O dia dos ex-namorados seria algo mais "realista", digamos assim. Não perderia em romantismo, mas teria um perfume de ironia: ninguém pode querer ser tudo - é o suposto.
Há esse ex libertador que te expulsa para fora, para o mundo e torna o ex-namorado a garantia da intimidade sem o grilhão do compromisso - o pior já passou... O ex, aqui, não é passado, mas pedaço - algo que se soma.

Falo, claro, dos ex-namorados "bons".

Falo daquelas pessoas para quem você em algum momento foi tudo. E ainda que para alguns, bem ou mal, algum dia, isso de ser tudo se revele uma ilusão - não porque esta seja uma ilusão a se perder, mas uma ilusão que se sacrifica em troca de mais solidão e liberdade - ter vivido essa ilusão - ilusão verdadeira e não engano, pois que se vive com a mesma intensidade de um sonho - ter vivido, digo, essa ilusão com alguém, torna esse amor um laço que é eterno no limite do humano.

Ter ex-namoradas, enfim, é tão bom quanto ter namoradas. Um dia não elimina o outro - eles até se completam: só namorado bom vira ex-namorado mesmo... As datas servem para não nos deixar esquecer.