Todo ano eu insisto nas mesmas teclas: por que não criam um dia dos ex-namorados? Nada contra o dia dos namorados, claro. Há nesse dia uma inocência irresistível, vigorosa, de primeiro amor. Presentear alguém nesse dia nem que seja com uma flor - ou sobretudo com uma flor! - e seja lá quem for: amante, mulher, amiga, namorada - é dizer que esse nosso amor ainda viceja intenso como no primeiro dia, que há um fogo que nos ata, insolúvel e te faz amante, mulher, amiga, namorada, tudo.
O dia dos namorados
é isso: o dia de se viver a ilusão
de quem alguém pode ser tudo.
O dia dos ex-namorados seria algo mais "realista",
digamos assim. Não perderia em romantismo,
mas teria um perfume de ironia: ninguém
pode querer ser tudo - é o suposto.
Há esse ex libertador que te expulsa
para fora, para o mundo e torna o ex-namorado
a garantia da intimidade sem o grilhão
do compromisso - o pior já passou...
O ex, aqui, não é passado, mas
pedaço - algo que se soma.
Falo, claro, dos ex-namorados "bons".
Falo daquelas pessoas para quem você em algum momento foi tudo. E ainda que para alguns, bem ou mal, algum dia, isso de ser tudo se revele uma ilusão - não porque esta seja uma ilusão a se perder, mas uma ilusão que se sacrifica em troca de mais solidão e liberdade - ter vivido essa ilusão - ilusão verdadeira e não engano, pois que se vive com a mesma intensidade de um sonho - ter vivido, digo, essa ilusão com alguém, torna esse amor um laço que é eterno no limite do humano.
Ter ex-namoradas, enfim, é tão bom quanto ter namoradas. Um dia não elimina o outro - eles até se completam: só namorado bom vira ex-namorado mesmo... As datas servem para não nos deixar esquecer.