4 de setembro de 2000
A máquina

Duas coisas me afligem neste momento: a gripe e a falta de assunto. Uma me machuca o corpo; a outra, me tortura o espírito. Queria estar deitado, talvez vendo um vídeo ou relendo algum livro, ou não fazendo nada, apenas deitado, descansando o corpo moído pela gripe. Mas estou aqui, sentado em frente ao monitor, vendo se sucederem essas letrinhas quase silenciosas, pingadas uma a uma sem muita vontade ou inspiração.

Antigamente - e eu ainda sou desse tempo - havia a folha em branco, "o desafio da folha em branco", e o barulho da máquina de escrever. Era uma coisa mais palpável, algo que se podia ouvir e encarar, pegar, amassar e atirar longe, com raiva. Era algo muito mais sensual e concreto. Você encaixava o papel no rolo da máquina, ajeitava as margens e se punha a contemplar a superfície branca e permeável à tinta da fita que se interpunha entre ela e as teclas metálicas com as letras gravadas em relevo.

Havia alguma poesia nisso, na tensa relação que se estabelecia entre o escritor e seu texto, entre o ato de pensá-lo e o ato de escrevê-lo. Não convinha, por exemplo, desperdiçar papel. Não se podia, a cada erro, arrancar a folha e recomeçar com uma nova. Nem tampouco se desejava um texto final "sujo", coberto de rabiscos e correções. Então era preciso meditar mais ou menos longamente antes de cada palavra, de cada frase que, uma vez escrita, ganhava um caráter definitivo - ou tão "transitoriamente definitivo" como qualquer outra coisa deste mundo.

Uma vez escrita, a palavra, a frase passavam a fazer parte deste mundo e ainda que atirássemos fora a lauda - sim, agora me lembro, chamávamos de lauda ao papel próprio para a máquina - ainda assim elas ficariam lá, registradas, até que o fogo das lixeiras as incinerassem.

Agora, nem tanto... Estas palavras não têm mais esse compromisso com a realidade; são virtuais - existem e não existem, ao mesmo tempo, contrariando o próprio princípio aristotélico de não-contradição. Aliás, a informática é a vitória de Platão sobre Aristóteles - mas isso já seria assunto para ourtra crônica.

Não me tomem, no entanto, por um nostálgico dos "tempos antigos" - que nem tão antigos são. O micro é infinitamente mais funcional que a máquina de escrever. E mais econômico. Na verdade, do que sinto falta mesmo é - pasmem! - do barulho da máquina. Como eu gostava daquilo, do ruído seco das teclas golpeando o papel, imprimindo uma a uma cada letra, às vezes em um ritmo frenético, outras, lenta e espaçadamente. Pode-se mesmo dizer que havia uma "música" que se fazia junto com o texto e que, não raro, o estimulava.

Já tentei, inclusive, incorporar aos diversos processadores de texto que uso o som das teclas - o icq, por exemplo, tem esse som em seu repertório. Não consegui - e ficaria contentíssimo se alguém me ensinasse como. Mesmo assim, ficará faltando brilho prateado das hastes das teclas cortando o ar para gravar no branco da página as letras negras que iam formando os poemas - que, naquele instante, era sempre O Poema.

Outro dia ainda procurei minha velha Olivetti Letera 32, um dos últimos presentes que meu pai me deu. Para minha tristeza, descobri - ou melhor, lembrei - que a emprestara para uma namorada. Ela se foi, sem devolver a máquina (que hoje, se ainda não foi para o lixo, deve estar esquecida no fundo de algum armário - triste e bela imagem-síntese do que é a vida humanamente...)