10 de abril de 2000
Justiça

Escrevo na quinta-feira, véspera da manifestação pela Paz. Vou, sim, acender uma vela em cada janela e apagar as luzes de casa. Só não sei se me vestirei de branco. Acho preto mais apropriado. Quero paz, mas me sinto de luto.

Quero paz, mas não tenho fé. Duvido que a própria manifestação venha a dar frutos. Sexta-feira, 7/ 7, às 7 horas, tem uma óbvia conotação simbólica, mas, na prática, ainda vai encontrar as principais vítimas da violência esperando transporte em filas intermináveis ou apertadas em ônibus presos em engarrafamentos. Sobre essa violência, nem uma palavra. Gente tratada como gado e pagando caro por isso.

E vestir-se de branco é um luxo dominical que não combina com trabalho: roupa branca suja fácil.
Eu quero paz, mas não dá para ter fé nos resultados de uma manifestação que coloca, nesta ordem, os seus objetivos: justiça social, desarmamento, valorização e reforma das polícias. É tão óbvio que a proibição do porte de armas é algo que só poderia ser discutido quando se alcançasse um mínimo de segurança pública. Ou que justiça social é uma expressão tão genérica que resume tudo e não diz nada.

Mais óbvio ainda é que exatamente o último item é que deveria ser o primeiro - e o único. Pois, a valorização e reforma da polícia é o que de fato pode trazer resultados práticos imediatos.

Basta conversar com a empregada que irá lavar a roupa branca suja da manifestação para saber que o pobre quer Justiça - e não Paz, exatamente. Lei, enfim. Quem mora nos bairros pobres das grandes cidades quer simplesmente que a polícia funcione como polícia, que o juiz funcione como juiz, que o servidor público seja exatamente isto: um servidor público.

A Paz virá como consequência da Justiça. Não a justiça implícita na expressão "justiça social", que inclui escola, médico, transporte, melhores salários, aposentadoria digna. Mas Justiça na prática - o que significa poder contar com o policial, com o delegado, com o juiz. A disparidade entre o salário e benefícios do policial que no dia-a-dia enfrenta a violência e os do juiz que deveria puni-la é absurda e precisa ser imediatamente corrigida. No cotidiano de uma cidade o policial, o professor e o médico são os personagens que de fato constróem nosso bem-estar ou nossa miséria.

O desprezo institucional pelos mais pobres é herança cruel de séculos de escravidão? Talvez. Mas o combustível da violência no presente é a proibição ao comércio e consumo de drogas. Eis um ponto em que Milton Friedman e o comandante militar das FARC concordam: a única solução para o tráfico é a liberação do consumo e do comércio de drogas.

Nem discuto o direito constitucional do Estado intervir na relação do sujeito consigo mesmo - é evidente que o Estado não tem esse direito: cada um é livre para fazer o que bem entender com seu corpo - e com seu dinheiro. A liberdade é o princípio inquestionável e radical da democracia. Não há meio termo, nem meias medidas, portanto.

Falo de um fato evidente por si mesmo: é a ilegalidade do comércio e do consumo que está na raiz de toda a corrupção e violência que hoje ameaçam destruir de vez as instituições. A sociedade apodrece por dentro, para prejuízo de todos e lucro de alguns poucos. E só a esses interessa que as continuem como estão.