17 de julho de 2000
Fotos de viagem

Teve uma noite que não ficou registrada em fotos, mas foi tamanha festa para os olhos que da memória o tempo nunca lhe arrancará o brilho. Era já de madrugada e você de repente me tira do nada um Chrysler conversível pra gente dar umas voltas, só nós dois, pela cidade.

Eu ria, você ria. Mas foi só quando a gente parou pra levantar a capota - os dois na rua deserta apertando todos os botões do painel até descobrir qual nos abriria o céu... Foi só quando a gente levantou a capota que eu que era lua cheia - e que aquilo tudo era um presente, calculado improviso de DJ..

E lá fomos nós, de carruagem, a céu aberto, atravessando todas as pontes de NY só pra ficar suspensos no ar, com o vento a nos riscar de frio e a lua a arrepiar o rio, rastro úmido lambido sobre o dorso, calafrios de prazer por todo o corpo.

Eu e você; a lua e o rio; o carro e a ponte... De que filme você saiu, de que sonho? Sempre tudo teu parece vir do céu... Uma vez, te escrevi um poemeto que era assim:

"Roubei, Deise, do Jardim dos Anjos,
    A Rosa Azul, que só teus olhos vêem"

Talvez seja isso: você vê coisas que ninguém vê. Eles nunca entenderam muito bem isso. Nem você. Na verdade, ninguém nunca entendeu. E nem por isso você foi menos feliz. Claro que você sofreu. Todo mundo sofre. Mas você tem uma coisa boa: ou você esquece ou você perdoa. Perdoa quando ainda ama. Esquece quando magoa

"Baby is On Fire" - é a tua cara, teu retrato. Nunca vou esquecer a gente dançava alucinadamente enquanto eu explicava para os outros que o sentido da vida é queimar de amor para alimentar as estrelas.

"Baby is On Fire": estamos condenados ao amor, a arder de amor para alimentar as estrelas. Se dor ou prazer - a escolha é nossa. Só essa. Seja sob a forma que for - inveja, ciúmes, ódio, entrega, atenção, fé - tudo é amor. Só dá, enfim, pra escolher como se vai queimar...
Há quem tente se economizar. Você é das mais generosas, tua chama cor de rosa inundando ruas, becos, avenidas - e gente de todo tipo... Baby on fire, você é Rimbaud...

Eu me lembro que quando a gente, uma certa hora, ligou o rádio eu cheguei a fazer um pedido... Lembro que eu disse que queria ouvir Shaft, queria ouvir Isaac Hayes cantando "He is a man..." enquanto a gente passeava pelas avenidas sem capota... E não é que quando paramos o carro em frente de casa no instante final de desligar o rádio, o que começa a tocar? "Damn, right...": Shaft! Ligamos o carro e fomos rodar mais um pouco...