18 de setembro de 2000
O pecado original

O que será que passa na cabeça de alguém que inventa e espalha um vírus de computador? Claro, existe uma comunidade mais ou menos clandestina de programadores "do mal" que se divertem criando esses vírus, invadindo computadores, perpetrando ataques e invasões. Mas como esse tipo de ação é crime, a divulgação de seus autores permanece restrita ao pequeno círculo de adeptos dessas práticas - e ainda assim envolta sempre em uma aura de dúvida e mistério: nunca é possível confirmar de fato a autoria de um vírus e qualquer um pode, a princípio, gabar-se de ter sido o criador.

Portanto, não é a fama o que o sujeito almeja quando perde horas e horas de sua vida criando um vírus. Muito menos dinheiro - vírus não são comercializáveis - a não ser que se comprove algum dia que seriam as próprias companhias de software que financiam esse tipo de trabalho para manter aquecido o mercado de programas antiviróticos. Mas esta é uma hipótese muito pouco provável - impossível mesmo. As consequências no caso da descoberta de um fato desses seriam tão desastrosas e os custos tão altos que simplesmente não valeria a pena arriscar.

Não, a iniciativa é puramente individual e quase anônima. E aí, voltamos à questão inicial: o que será que passa na cabeça do cara que a esta hora, em algum lugar do mundo, está solitariamente - como costumam ser as horas que passamos em frente ao monitor - dando tratos à bola para imaginar um vírus mais poderoso e eficaz? Disse que ele é "do mal" porque tem consciência do que está fazendo, mas na hierarquia dos seres malignos que habitam este mundo, eu os colocaria lá embaixo - mais como anjos embriagados de rancor do que propriamente demônios á plena natureza.

E quando pergunto pelo que pensam ou sentem não tenho a menor intenção de me afundar em psicologismos. Nada... Minhas pretensões são muito mais altas - são quase teológicas! Explico: outro dia eu disse aqui que o mundo da informática obedece a um modelo platônico. Um simples download de programa, por exemplo, segue o mesmo esquema da mundo das idéias de Platão! Como qualquer manual de filosofia ensina, para Platão existiria um mundo das idéias, habitado por formas puras das quais todas as coisas existentes seriam meras cópias. Enfim, existiria um Homem ideal de quem todos nós seríamos cópias e assim para tudo... Ora, o que é aquele aquele programa que está lá, único e "eterno", em um sítio qualquer e do qual um número infinito de pessoas pode se servir para "baixar" cópias - senão exatamente isso? Li em algum lugar que na cultura ocidental ou somos aristotélicos ou platônicos - e não apenas nós, pessoas, como também as épocas históricas seriam mais ou menos uma ou outra coisa. Nesse caso, o ´seculo 21 começa marcadamente platônico...

Mas, enfim, neste mundo de formas idealizadas não havia "lugar" para o mal. O mundo da informática era para ser um paraíso virtual de formas "puras" - insubstanciais e baratas, acessíveis a todos, quase onipresentes em sua simultaneidade, quase eternas em seu poder de reprodução inesgotável.

Pois bem, nesse mundinho paradisíaco, um dia alguém resolveu "inventar" o mal - sem nenhuma necessidade e sem nenhum proveito aparente. Me ocorreu agora a historinha tantas vezes contada do escorpião que pede para atravessar o rio nas costas de um outro animal, mas que, no meio da travessia, não resiste ao apelo de sua natureza e pica o animal que o carrega, arrastando os dois para morte... Tem algo a ver, ainda que nem de longe esgote o tema (e seja muito pobre como imagem...).

Mas o que eu quero dizer é que alguém resolveu "comer a maçã". Por quê? Não sei.. Mas a questão é mais teológica do que psicológica... Honestamente, eu sou incapaz de arriscar sequer um palpite - me contento com a perplexidade que dá nome a este espaço... Mas se alguém quiser tentar uma resposta, por favor, é só escrever...