16 de outubro de 2000
Gente de teatro

Todo mundo tem seu repertório. Do meu faz parte repetir que o teatro é um modo interino de estar louco. Todos estão ali para crer - crer que o ator é um outro que não ele. Todos - inclusive o próprio ator. E ainda que a platéia saiba - e felizmente os atores também - que isso não é verdade, todos sentem que os atores são agora outros. Consentimos juntos em crer. E o sucesso será tanto maior quanto mais a ambígua relação entre razão e sentimento se aproximar da ruptura.

Mas quando a gente se aproxima do teatro, percebe que não é tanto a loucura do pacto o mais fascinante, mas a crença. O teatro é sagrado porque é o espaço onde, como em todos os templos, somos levados a crer. É nosso poder de crer - e de criar, portanto - que é ativado. Sem essa fé não há criação. Ao contrário do templo, no entanto, o teatro não vem envolto em solenidade, mas em insolência. Brincamos de crer - exatamente como quando éramos crianças. E essa talvez seja a chave para a entender o teatro, uma delas ao menos: somos de novo a criança capaz de criar apenas pela força de sua crença.

E então não se trata mais de representação, mas de encarnação mesmo. A "alma" que momentaneamente toma o ator e parece possui-lo não é alguém, um morto nostálgico que nos visita: é essa entidade absolutamente humana chamada "personagem". Eu gosto de imaginar que, por força de tantos séculos sendo tão intensamente encarnado, Hamlet já "é" alguém, alguma espécie nova de anjo.

Tanto que não é incomum ouvir atores dizendo que mudaram depois de ter sido este ou aquele personagem. Aliás, o que é o ator? Não sei, mas é certamente alguém de outra natureza. Médium, louco, santo - sei lá, um pouco de cada. E não só ele, mas cada um daqueles que "fazem o espetáculo": o escritor, o diretor, o figurista, o cenógrafo, o iluminador, o coreógrafo, o músico, os diversos operadores - há uma comunhão de esforços que diariamente se renova para que o espetáculo exista.

Ter o privilégio de ver toda essa gente trabalhando junta durante o processo de produção de uma peça é algo inesquecível. É vendo toda aquela gente junta, falando, martelando, costurando, dançando que você percebe que o teatro é eterno - que ele sempre existiu e sempre existirá. Não importa se é Shakeaspeare ou o texto de um farmacêutico de província. Importa a comunhão dos homens no seu esforço de manter viva a criança, a criança capaz de crer e criar.