4 de junho de 2001
Burrice, má intenção ou fascismo

"A estrela baiana sou eu" - era o título da entrevista de Caetano Veloso ao segundo caderno de O Globo, no domingo, 27 de maio. Impossível, portanto, não sentir uma imediata antipatia pelo entrevistado, fosse ele quem fosse. É provável que, por conta do título e do sentimento de desprezo que produzia, muita gente não tenha sequer lido o texto e ficado com a impressão de um Caetano cuja vaidade chegara ao cúmulo da egolatria delirante. Pena... Perdeu não só a oportunidade de conhecer as opiniões de Caetano - tão únicas e irrelevantes quanto qualquer opinião - , mas também um excelente exemplo de manipulação e deturpação dos fatos no jornalismo, característica de uma imprensa que ofende a inteligência do leitor - se por burrice ou má intenção, pouco importa.

Pois veja de que parte do texto foi tirado o título e decida se não houve uma clara deturpação de seu sentido original. O entrevistador pergunta: "E a outra associação, que muita gente ainda faz, de você com ACM?" E Caetano responde: "A associação (...) é simplesmente ofensiva. (...) A imprensa adora ACM, mas a estrela baiana AQUI sou eu. E ninguém vai me fazer tomar o ESPAÇO DA REPORTAGEM SOBRE O MEU SHOW para encher o jornal de mais ACM."

Destaquei a palavra "aqui" e as expressões "espaço da reportagem" e "sobre o meu show" para mostrar que o que Caetano queria dizer era simplesmente que ali, naquela entrevista, a estrela era ele, e não ACM. Ao menos, me parece óbvio que seja isso. Daí a se transformar essa observação em título, isolando-a no alto da página como se fosse uma autodefinição vaidosa e desprezível só se pode atribuir, volto a dizer, a burrice ou má intenção.

Não falo em defesa de Caetano, mas em defesa de mim mesmo, como leitor. Esse tipo de manipulação grosseira dos fatos ofende, ainda mais levando-se em conta que compramos o jornal na certeza da impossibilidade de ter nosso dinheiro de volta se nos depararmos com uma matéria "estragada".

Em resumo, esse tipo de manipulação é essencialmente fascista, ditatorial, antidemocrática. Pois a democracia como a concebo é, essencialmente, o regime da verdade. Não a verdade que tem na consistência retórica dos discursos seu critério, mas a verdade que se funda na correspondência aos fatos. Daí porque me irrita o modismo babaca do abuso dos termos "consistente" e "consistência" no jornalismo. Porque o critério de verdade do bom jornalismo são os fatos e não a "consistência" dos discursos ou dos press-releases. Enfim, repórter que se preza não fica analisando a consistência de declarações mas vai para a rua buscar a correspondência delas no mundo. Em uma palavra: apura, em vez de analisar texto.

Mas, voltando à entrevista, pior foi ler no dia seguinte a repercussão da matéria. Dois depoimentos me chamaram a atenção, porque se afinam perfeitamente com a manipulação da entrevista. O professor de ciência política Francisco Fonseca, da PUC/SP, acusa Caetano de "prestar um desserviço à democracia brasileira" (sic) por ter dito estar de saco cheio do Brasil. Ora, democracia supõe a livre expressão como fundamento. Logo ninguém presta "desserviço" algum ao dar sua verdadeira opinião quando perguntado sobre qualquer coisa. Pelo contrário. É justamente a livre circulação de idéias e opiniões que estimula o debate e favorece a democracia.

Já o professor de ética e filosofia política Roberto Romano, da Unicamp, diz textualmente o seguinte: "O juízo de Caetano é o juízo da classe média fascista, sem nenhum engajamento político". Das duas, uma: ou o repórter que ouviu o professor anotou errado o que ele disse ou o professor é uma besta. O que tem a ver falta de engajamento político e fascismo? Ou classe média e fascismo? E o fato de alguém se dizer de saco cheio do Brasil denota desengajamento político ou exatamente o contrário?

Antidemocráticas e fascistas são as opiniões dos dois acadêmicos e, nesse sentido, se identificam perfeitamente com a manipulação dos fatos promovida pelo responsável pela edição da entrevista de Caetano.

Enfim, é no cruzamento da manipulação de manchetes com a imposição do sacrifício da opinião pessoal em nome de supostos "serviços" ou "engajamentos" que eu enxergo uma estranha coincidência de método entre fascismo, comunismo e o neoliberalismo "nascente": a submissão dos fatos aos resultados desejados - sejam eles atingir de modo baixo um desafeto, "educar as massas" ou vender mais produtos. Pouco importa se o título é distorcido, se a opinião é falsa ou o produto um lixo. Importa é vender. A verdade que se dane...

Nessa ética de resultados, onde o lucro, em dinheiro ou votos, é o valor, a estatística, convertida em pesquisas, é o critério da verdade e o marketing o código de conduta, nessa ética de resultados, digo, não é de espantar que a propaganda tenha ganho um "sentido pedagógico". A solução, leitor, é desligar a tv e abrir o olho...