Noite de lua cheia, dia de sol, o céu sempre variando do azul-azul a esparsas nuvens feitas da brisa que se sussura nas folhas de manhã. As meninas aproveitam pra ir à a praia e movem-se com a mesma graça preguiçosa dos galhos animados pelo vento, mas seu corpo tem o viço que falta às folhas foscas das árvores que resistem à ardua cidade. Elas passam confiantes na sedução que exercem quase displicentes - são meninas, são eternas ninfas - são musas suburbanas perfumadas de petulância - e fazem suspirar à passagem delas moços e velhos nas calçadas e janelas.
Num dia assim como acreditar
que alguém queira acabar com o mundo - com este mundo?
Não queria tocar no assunto, mas como fazer se Monica
liga de Nova Iorque? Ela ama a cidade, mas é toda tensão.
Sumiu mais um avião, ela diz. Parece uma conspiração.
Mas ninguém sabe quem eles são. Se eles têm
um deus seu nome é destruição.
É, sinto dizer: estamos lidando com gente que só
crê em vida DEPOIS da morte. Isto aqui pra eles é
ilusão - maligna ilusão. Se engana quem pensa
que possa haver discussão. Se engana quem pensa que
pode avançar com eles. Eles são da turma do
não.
"Ei, você, preste
atenção!
Este é o rap do bonde do não.
Eu, você, ateu, Bíblia
e Alcorão.
Judeu, palestino ou afegão.
Mocinho ou bandido, polícia e ladrão.
Pra eles é tudo ilusão.
Pra eles é tudo alemão.
Aí, meu irmão,
se liga no refrão:
Cuidado com o bonde do não.
O deus dele é a destruição.
É a batalha do bem contra
o mal.
É a batalha do sim contra o não.
E quem não sabe se é sim ou se é não
Vai ser levado pelo arrastão
Quando passar o bonde do não.
Eles fingem que são
Eu, você, ateu, Bíblia e Alcorão.
Judeu, palestino ou afegão.
Mocinho ou bandido, polícia e ladrão.
Mas pra eles não tem
Nação, irmão, nem religião.
Seu nome é legião.
Se liga, irmão:
Chegou a hora do sim ou não.
Não tem mais mocinho e bandido,
Polícia e ladrão.
Quem é do sim é do sim
Quem é do não é do não."
Enfim, é isso que sinto, farejo, percebo. Porque saber, saber mesmo, ninguém ainda sabe nada. E talvez nunca venha a saber. Ou quando souber talvez já não haja muito a fazer. Acho que chegou o tempo em que iremos ver - e este será nosso menor espanto - que o que nos divide - eu e você; ateu, Bíblia e Alcorão; judeu, palestino ou afegão; mocinho ou bandido, polícia e ladrão - é, no fundo, quase nada.
Tem uma passagem em "Uma
Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", da Clarice Lispector,
em que Lóri diz que Ulisses lhe ensinou a viver "apesar
de...".
Minha mais viva esperança é que a gente descubra
em meio ao turbilhão que "apesar de" todas
as diferenças que nos separam só uma , a fundamental,
importa de fato agora: há os que crêem neste
mundo - neste sol, neste céu, nestas meninas que passam
em direção ao mar - e há os que não
crêem. De que lado você está - "apesar
de..."?