8 de outubro de 2001
Apesar de...

Noite de lua cheia, dia de sol, o céu sempre variando do azul-azul a esparsas nuvens feitas da brisa que se sussura nas folhas de manhã. As meninas aproveitam pra ir à a praia e movem-se com a mesma graça preguiçosa dos galhos animados pelo vento, mas seu corpo tem o viço que falta às folhas foscas das árvores que resistem à ardua cidade. Elas passam confiantes na sedução que exercem quase displicentes - são meninas, são eternas ninfas - são musas suburbanas perfumadas de petulância - e fazem suspirar à passagem delas moços e velhos nas calçadas e janelas.

Num dia assim como acreditar que alguém queira acabar com o mundo - com este mundo? Não queria tocar no assunto, mas como fazer se Monica liga de Nova Iorque? Ela ama a cidade, mas é toda tensão. Sumiu mais um avião, ela diz. Parece uma conspiração. Mas ninguém sabe quem eles são. Se eles têm um deus seu nome é destruição.
É, sinto dizer: estamos lidando com gente que só crê em vida DEPOIS da morte. Isto aqui pra eles é ilusão - maligna ilusão. Se engana quem pensa que possa haver discussão. Se engana quem pensa que pode avançar com eles. Eles são da turma do não.

"Ei, você, preste atenção!
Este é o rap do bonde do não.

Eu, você, ateu, Bíblia e Alcorão.
Judeu, palestino ou afegão.
Mocinho ou bandido, polícia e ladrão.
Pra eles é tudo ilusão.
Pra eles é tudo alemão.

Aí, meu irmão, se liga no refrão:
Cuidado com o bonde do não.
O deus dele é a destruição.

É a batalha do bem contra o mal.
É a batalha do sim contra o não.
E quem não sabe se é sim ou se é não
Vai ser levado pelo arrastão
Quando passar o bonde do não.

Eles fingem que são
Eu, você, ateu, Bíblia e Alcorão.
Judeu, palestino ou afegão.
Mocinho ou bandido, polícia e ladrão.
Mas pra eles não tem
Nação, irmão, nem religião.
Seu nome é legião.

Se liga, irmão:
Chegou a hora do sim ou não.
Não tem mais mocinho e bandido,
Polícia e ladrão.
Quem é do sim é do sim
Quem é do não é do não."

Enfim, é isso que sinto, farejo, percebo. Porque saber, saber mesmo, ninguém ainda sabe nada. E talvez nunca venha a saber. Ou quando souber talvez já não haja muito a fazer. Acho que chegou o tempo em que iremos ver - e este será nosso menor espanto - que o que nos divide - eu e você; ateu, Bíblia e Alcorão; judeu, palestino ou afegão; mocinho ou bandido, polícia e ladrão - é, no fundo, quase nada.

Tem uma passagem em "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", da Clarice Lispector, em que Lóri diz que Ulisses lhe ensinou a viver "apesar de...".
Minha mais viva esperança é que a gente descubra em meio ao turbilhão que "apesar de" todas as diferenças que nos separam só uma , a fundamental, importa de fato agora: há os que crêem neste mundo - neste sol, neste céu, nestas meninas que passam em direção ao mar - e há os que não crêem. De que lado você está - "apesar de..."?