12 de fevereiro de 2001
Viagem

Que emoção, leitor! A crônica que ocuparia este espaço já estava pronta quando, folheando uma velha edição de A Cidade e a Roça, de Rubem Braga, dei de cara com aquele que, na minha mitologia íntima, foi o o primeiro texto que me emocionou de fato!

Eu devia ter uns dez anos e entrara na moda a Matemática Moderna e a Interpretação de Textos - dois avanços pedagógicos que pais e alunos olharam com desconfiança porque, no fundo, sabíamos, vinham abrir ainda mais o abismo de gerações que os separava.

Enfim, eu tinha nove, dez anos e eis que, numa prova de Português, surge o item já então inevitável: Interpretação de Texto. E, logo abaixo, seguia um bloco de letras intimidador que, no entanto, para minha surpresa, me acolheria com suas palavras talvez um pouco tristes, mas carregadas de amor e esperança. (Mais ou menos como, dizem, era o próprio Rubem: fechado e monolítico em aparência, mas com uma alma de navio...).

Falo em navio, mas era de avião que tratava o texto. Este texto. Sim, este - sobre uma curta viagem de avião de São Paulo ao Rio em que o autor enfrentara o mau tempo e o contava de um modo que o menino não sabia ainda nomear, mas que o comovia tão profundamente que naquele momento ele, o menino, já sentia que seria para sempre.

Chama-se Viagem a crônica, publicada em agosto de 53, quando eu nem ainda pensado era, e só não o reproduzo aqui porque falta-me espaço - um espaço que hoje é meu certamente por causa desta crônica.

Sim, lembro de mim sentado em uma carteira próxima da porta, encostada na parede oposta às janelas da sala enorme em uma fria tarde de inverno chuvoso com o céu igual talvez àquele que o avião de Rubem enfrentava. Lembro até de qual seria a sala do "prédio velho" do Colégio Zaccaria...

Lembro: A Viagem, Rubem Braga. (E que longa viagem foi chegar aqui, Rubem - neste espaço vaga e ardentemente desejado desde aquela tarde... E como a luz do teu lirismo me iluminou o caminho quando o céu era escuro e não oferecia rumo, quando o medo mudo era eu sem chão visível).

Um ou dois anos depois, já no ginásio, eu reencontraria Rubem: A Borboleta Amarela - meu primeiro livro "sério". Até hoje tenho o livro, que há décadas me prometo reencadernar - mais uma de tantas promessas adiadas, nobilíssimas promessas que, somadas, são esse outro eu, complementar e simétrico, de que sou a sombra, real e imperfeita.

Releio a crônica de Rubem uma, duas vezes... É este texto, sim - e como sempre quis reencontrá-lo, eu que cheguei a ter quase completa a coleção de coletâneas que ele periodicamente publicava. Tanto que me parece impossível não tê-lo visto antes, que só agora a redescoberta se tenha dado. Certamente o vi e esqueci que vi...

Não, mais certo ainda é dizer que nunca antes emoção e texto se haviam encaixado com a intensidade original daquela tarde. Talvez minha vida tenha sido isto: uma sucessão de encontros e desencontros em busca desta emoção antiga. Minuciosa e inconsciente busca desta emoção tão primordial quanto o cheiro do pão na madrugada, a mão amada que te afaga em silêncio, um sonho bom que se esquece ao despertar.

Ah! Rubem... E mesmo ainda, quando céu e chão me faltam e vago, frio, por meus escuros, é em teu lirismo que busco abrigo, mesmo que ainda ele soe falso em mim como um casaco comprado de segunda mão, mas que insistimos em usar porque imaginamos que ele nos faz mais elegantes.

Sabe, outro dia, lendo Como e Por Que Ler, de Harold Bloom, achei uma frase que me emocionou: "a literatura é uma forma de fazer o bem". Você me fez bem, Rubem Braga - você me fez o menino que veio a ser o pai do homem. Valeu.