12 de março de 2001
Só um tapinha

Coitado do Tigrão... Virou herdeiro involuntário de Nelson Rodrigues e símbolo da degradação nacional dos costumes. Tudo por conta do refrão "Só um tapinha não dói". E tome artigo, entrevista e análise - sociológica, antropológica, psicológica - descendo o sarrafo nos garotos. Mas entre a frase de Nélson Rodrigues "Toda mulher gosta de apanhar" - acompanhada da ressalva, fundamental e sempre esquecida: "Menos as neuróticas" - e o funk do Tigrão há uma distância enorme, ou melhor, uma diferença de grau evidente.

A frase de Nélson ressoa bíblica como uma sina atávica e ancestral, algo como a revelação de um segredo profundíssimo da libido feminina (e masculina, pois, agora me lembro, além da ressalva sobre as neuróticas, Nelson finalizava seu vaticínio com a conclusão trágica: "Os homens é que não gostam de bater").

Tigrão é mais modesto: seu refrão é um pedido e uma promessa - que, da maneira como é posto, mal dá para duvidar da sinceridade: afinal, não é um tapa, mas um tapinha. E um só... Não é pra doer. E é mesmo difícil acreditar que alguém que chame a mulher de Tchtchuca queira de fato machucá-la...

É bem diferente: Nélson obriga todas as mulheres - e apenas elas - a surras regulares, necessárias e desejadas. O Tigrão tenta apenas incorporar o tapinha ao seu arsenal erótico de carícias... É como se ele tentasse encerrar a polêmica de décadas lançada por Nélson com a conclusão conciliadora: só um tapinha não dói. Faltou apenas acrescentar um "de vez em quando", pra livrar de vez as neuróticas que não gostam de apanhar e os homens que não gostam de bater do analista a que Nelson os condenara...

Sério, acho bobagem tudo que se anda dizendo sobre a música... Não acredito que por conta dela uma geração de futuros sadomasoquistas esteja se formando ou que todas as tais conquistas feministas estejam de fato ameaçadas de perder o bonde. Acho que o que de fato incomoda é a exposição da violência natural do sexo de forma tão explícita para o deleite sem culpa de seus protagonistas... Libertário demais para o gosto conservador e dominante que cultiva a camisinha e condena a garotada a uma sexualidade medrosa e sem graça. Libertário demais para quem pretende que os impulsos sadomasoquistas do sexo devam ser mantidos reprimidos a todo custo e tratados como doença.

Aí, aparece um moleque de morro e argumenta com todas as letras: "Ora, só um tapinha não dói...". Fico imaginando o quanto esse refrão deve soar para certos ouvidos como uma carta de alforria...

Claro, óbvio, o imbecil há de ouvir aí um apelo à violência contra a mulher - e os mais fracos em geral. Mas, convenhamos, o imbecil não tem jeito. Ele será violento com ou sem o Tigrão e em tudo verá um argumento em favor de sua estupidez. O imbecil é a guarda pretoriana do moralista: a violência deles não se erotiza, não se dissolve no sexo consentido e sem limites, mas se exerce pela imposição à força de sua vontade: só ele goza - e sem sexo.

É a violência das delegacias, das aposentadorias aviltantes, das crianças abandonadas nas ruas, dos presídios superlotados que de fato nos ameça. Minha crítica ao Tigrão não é moral, mas estética. A música, tocada na hora certa por um DJ competente, levanta e alegra qualquer galera. Mas repetida à exaustão, acaba mesmo enchendo o saco. Tigrão não é Mozart. Nem Chico. A letra é uma bobagem, como 90% das letras de música, mas sem a pretensão da maioria delas. O que não deixa de ser um mérito...

Aliás, para acabar com todas as dúvidas, proponho um anúncio de TV em que o refrão correria em off - "só um tapinha não dói" - enquanto no vídeo se alternariam fotos de mulheres vítimas de violência, os rostos inchados, as cicatrizes, até encerrar com o Tigrão dizendo no melhor estilo funk: "Se liga, mano. Bater em mulher é covardia.", ou qualquer coisa do gênero. Faria mais efeito que muita campanha que rola por aí...

Enfim, canalha mesmo é o esperto que já registrou o domínio www.bondedotigrao.com.br e o pôs à venda. É desses que eu tenho medo.