15 de outubro de 2001
Espuma branca

O sábado já amanheceu errado. Faz calor, mas não há sol - só este mormaço vindo do céu fixo, de nuvens imóveis e sem vento. Não vai dar praia, é certo - e o jornal ainda avisa que as águas estão poluídas de uma espuma branca que se estende por toda orla. Vômito de algas, dizem, saturadas dos dejetos que a cidade lança no mar. Espuma branca, destilação de dejetos, defecação vegetal, merda da merda, metamerda, metáfora da vida na cidade.

O corpo acorda melado de um suor que não escorre, gruda, oleoso - quase invisível, mas tátil. O corpo acorda, a alma, não. Presa da memória, a alma é pedra. Fica - no oco impreciso do corpo marcado nos lençóis? - concentrada nas culpas e arrependimentos que remói e quase se pode ouvi-la em seu trabalho. Ou será o relógio? Dá no mesmo...

E então o corpo sem alma pode ver-se no espelho com o distanciamento que a ciência dos séculos passados preconiza. Olha-se sem se ver e chama isso de sabedoria. Conclui: é preciso tomar banho. Mas falta ao corpo a vontade, nome que a filosofia dos séculos passados dá à alegria. O corpo volta para a cama: quer talvez achar a alma no oco dos lençóis. Não mais: o sábado já amanhecera errado.

Levanta-se de novo. Fuma. Fuma porque sabe que o cigarro é a morte e é lá que pensa encontrar a alma - assim ensinavam as religiões dos séculos passados. Tabaco. Café. Açucar. Maravilhas vegetais do Novo Mundo, esperanças econômicas dos séculos passados: é outra economia que alimenta agora a mesma esperança de sempre: manter ao menos a cabeça para fora da espuma branca.

O que há para comer? Aonde ir? O que fazer? Não sabe. O sábado amanheceu errado, sem dúvida. O telefone não toca. A televisão não pega direito: é uma sessão espírita eletrônica de mortos-vivos tornados objetos de culto.O que se vê são fantasmas, fantasmas dos séculos passados - ou cadáveres adiados que procriam. Tanto faz.

Só o sofrimento é notícia. Toda esperança se concentra nos intervalos: compre, compre, compre - e seja feliz. Slogans valem mais do que poemas: uma boa frase vale mais que mil palavras. "No windows, no gates: for a world without walls". Quem quer comprar uma frase? Linus Torvald? Mas ele está longe, nas terras frias da Finlândia, acho. Ele na Finlândia, e eu aqui, no fim do mundo.

Mas o mundo não acaba: o mar come e expele de volta nossa merda. Espuma branca. O mundo, em sua indiferença natural, transforma tudo de novo em vida. E nos espera. De volta. Se voltarmos, quando voltarmos, como voltarmos. Tanto faz.
Leio o jornal de ontem - está nas escadas, gratuito e anacrônico. Que diferença faz? O que terá mudado? What a difference a day make? Um cronista se lamenta que coisas ruins aconteçam a pessoas boas. Bons e maus, bem e mal: essa a ética dos séculos passados. Do tal cronista invejo apenas o salário.

Começa a abrir um vago solzinho... Mas o sábado já amanheceu errado. A medicina dos séculos passados empreende sua luta pessoal contra a morte no corpo dilacerado do astro pop. Se fosse outro, se fosse pobre em vez de pop, já o teriam deixado morrer, para misericórdia de sua alma dadivosa de artista.
Mas seu drama rende páginas e páginas de manchetes, coletâneas, cds póstumos e apressadas biografias.

São os mercadores da morte - cínicos ou inocentes. Tanto faz. Tudo é lucro. Espuma branca. Luto. "Nada se perde, tudo se transforma", ressoa a mensagem dos séculos passados para os séculos vindouros. Merda vira espuma, dor vira dinheiro. Carpe diem. O sábado já amanheceu errado.