17 de dezembro de 2001
A ascensão do Crepusculismo

Apesar de ser evidente disparate, o Crepusculismo vive um momento de glória e esplendor intelectual. Segunda-feira passada, ao mesmo tempo que anunciávamos aqui o caráter inescrupuloso do fenômeno Roseana Sarney, mais uma pesquisa era publicada, confirmando todas as nossas previsões. O leitor há de lembrar que os tais 20% do eleitorado atribuídos a Roseana foram citados como exemplo, no contexto da psicologia crepuscular, da criatividade dos caracteres inescrupulosos, definidos, bem entendido, como aqueles nebulosos que se fazem passar por vespertinos ou bicrepusculares, segundo sua conveniência. À essa ambiguidade de caráter é atribuída sua inventividade, que tanto nos ilude, diverte e instrui.

Pois bem, na mesma segunda-feira passada, uma nova pesquisa de mercado, impecavelmente travestida em pesquisa de opinião, foi divulgada. Mas, somente na quarta-feira, depois de intenso alvoroço entre as hostes crepusculares, o jornal O Globo detalhou, com sutil involuntariedade, a inescrupulosidade crepuscular da mais nova manifestação do fenômeno Roseana. Tamanha precisão não-intencional merece ser citada quase literalmente, inclusive para que não paire nenhuma dúvida quanto às provas. "O Ibope dedicou grande parte da pesquisa a perguntas sobre Roseana com o intuito de identificar o grau de conhecimento da população sobre a governadora e suas propostas".

É ou não é a prova definitiva de que se trata de uma pesquisa de mercado transformada, numa manobra inescrupulosa genial, em pesquisa de opinião? E mais: o sujeito lê no título que "Roseana se consolida em segundo lugar com 17% do eleitorado" e logo imagina que o Ibope - que em louvado gesto de modéstia acadêmica, não revela quanto recebeu da Confederação Nacional das Indústrias pela pesquisa - ouviu centenas de milhares de pessoas, talvez milhões. Mas, não... Trata-se apenas de um efeito especial! Na verdade, foram ouvidas apenas 2.000 pessoas! Não seria exagero comparar a beleza estética dessa multiplicação ilusória à cena da escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein!

Quem são essas pessoas? Onde vivem? A que classe pertencem? Quase poderiam nomeá-las se quisessem, mas O Globo, com louvável discrição, localizou-as com um enfático "de todo o país", não comprometendo com detalhes singularizantes a objetividade da investigação.

Dada a complexidade da tabulação de tão extensa pesquisa, não cabe aqui esmiuçar o método crepuscular de cálculo aplicado, nem detalhar as perguntas que foram feitas. Vale, porém, ressaltar que se trata de matemática sofisiticada, visto que para se chegar aos tais 17% foi preciso contornar os 46% que consideram as propostas de Roseana demagógicas.

Enfim, no gozo da fama imerecidamente conquistada por mais esta contribuição do Crepusculismo ao estupendo acervo de cretinices que constitui a cultura brasileira contemporânea, não poderia me furtar a dividir este momento de glória com o iminente brasileiro Severino da Silva.

Para os que não acompanham pelos jornais a verdadeira vida intelectual e artística deste país, preferindo as aventuras policiais do futebol brasileiro, esclareço que Severino da Silva é o suposto analfabeto que conqusitou com brilhantismo uma vaga no curso de Direito da faculdade estátua de sal - aquela onde, uma vez adquirido o diploma, o melhor que o sujeito faz é não olhar para trás, nem tocar mais no assunto.

Digo suposto analfabeto porque Severino demonstrou, não só um inquestionável conhecimento das letras A, B e X, como também um senso de alternância e ritmo na escolha das respostas, que demonstra inegável senso estético. Mas foi sua redação que certamente o tornará um sério concorrente de Paulo Coelho na disputa da próxima vaga na Academia Brasileira de Letras. Será, sem dúvida, emocionante.

Instado a escrever um texto qualquer, Severino, em gesto de ousadia que o eleva quase à condição de ícone da Modernidade, entregou aos examinadores uma folha em branco! Quem, até hoje, foi capaz, em literatura, de lograr tamanha síntese - para, desta forma, alcançar todos os homens, ultrapassando de um só golpe todos os obstáculos linguísticos? A folha em branco de Severino é, na verdade, uma Babel às avessas! Uma prolixa representação do Silêncio, onde espíritos sutis certamente saberão ver o Livro de Area idealizado por Borges.

Por tudo isto, leitor, e pelo muito que ainda poderia dizer se me sobrasse espaço, façamos desta crônica uma sessão solene onde, na qualidade de criador e destruidor do Crepusculismo, concedo o título de doutor honoris causa a Severino da Silva pelos óbvios serviços prestados à cultura brasileira e à literatura universal.