18 de junho de 2001
Tudo é bom

"Tudo é bom", Kim me diz e eu me prometo não esquecer: "tudo que acontece é bom", Kim repete, ainda mais explícito, como se quisesse deixar bem claro que não é das coisas que falamos, mas da vida. "Tudo é bom", a frase se entoa em meus silêncios como um mantra. Inutéis a lamentação ou o arrependimento: tudo é bom.

O passado é irremediável e no presente o acaso vigora. Melhor então estar pronto para aceitar o que vier: "tudo é bom". Não canso de repetir a frase. Ou melhor: a oração. A idéia que ela contém não me é nova, mas nunca a pensara dessa forma que me exige não o simples entendimento, mas a adesão do corpo inteiro - isto é, da alma junto. "Tudo é bom" não é só mais uma idéia, enfim, mas uma atitude, um modo de estar no mundo.

Acho mesmo que este hoje é o melhor presente que eu posso te dar, Sofia. Agora que você começa a viver a intensa novidade de tudo, as angústias e êxtases da adolescência, é esta a confiança que eu gostaria de te passar, a confiança de saber que tudo é bom. Para que o medo não te cale e venha a atrapalhar tua prudência no momento em que dizer não a alguém for a tua maneira de dizer sim a si mesma. Dizer sim, dizer não - tudo é bom: que então só o coração te guie, Sofia.

E se, em algum momento, aquilo que de mal em todos nós reside - não esqueça nunca que ser bom é diferente de ser puro - te levar a pensar que se tudo é bom, logo qualquer ato seu será necessariamente bom, lembra do que a Deise te disse quando você descobriu que o único restaurante aberto àquela hora em Brasília era também o único em que você não podia entrar: ela disse que não se deve desprezar ninguém, porque pode acontecer de ser justamente essa a única pessoa a nos poder ajudar um dia. Logo, "Só faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você" - e é o que basta. O nome desse sentimento é compaixão - que, repare, não se chama assim por acaso: quem faz com paixão, faz para um outro.

Essas duas máximas, vividas com paixão, são suficientes para você - e qualquer um - seguir vivendo feliz e sem medo da dor. Pense bem se não bastava: "Tudo é bom", "Só faça aos outros o que quiseres que te façam". Bastava sim - e por aí você já pode ver o mundo enrolado que criamos. Ou melhor: ëles"criaram. Nós, "os outros", apenas suportamos ou ajudamos a manter...

Aliás, como esta crônica acabou tomando o rumo inesperado de um papo entre pai e filha, você veja que até a rebeldia hoje em dia dá lucro! Quer coisa mais absurda do que uma calça nova que já vem rasgada? É a rebeldia transformada em produto. Que jeito vocês vão dar, eu não sei... Só sei que hoje está na cara que é preciso muita atenção para não fazer papel de bobo. Na dúvida, escolha sempre o pouco, o simples - porque, afinal, tudo é bom.