19 de novembro de 2001
Branco-azul da jabuticaba

Do muito de Rubem Braga, guardei o branco-azul da jabuticaba. Havia um branco-azul de jabuticaba no céu de Copacabana ao entardecer. Só por isso valia parar num quiosque e pedir água de côco. Ficar ali olhando a coisa simples que é um domingo. Ficar vendo a pedra com sua fileira de pescadores, o surfista solitário no mar grosso, redondo, espumoso, os pretinhos brincando na areia, o branco-azul da polpa da jabuticaba se adensando no azul-negro da casca e então já será noite. Hora de descer de volta a Atlântica, bem devagar, ouvindo jazz. Às vezes me comove como tudo é tão bonito...

A babélica confusão de vozes que o vento mistura e traz serve de coro ao solo do mar. "É preciso desconfiar das paisagens", avisa Buñuel. Elas embriagam, acrescento. Já vi pássaro, cão, gato neste mesmo estado de contemplação satisfeita da natureza, absortos na paisagem, compenetrados do prazer de estar vivo. Um sentimento de intimidade com a vida e com o mundo. Tudo tem isto e, uma hora ou outra, se concentra para sentir apenas isto, que nos acompanha em cada ato como presença imperceptível de sombra, esta intimidade que dispensa as palavras. Há uma hora em que até as pedras se dão conta de que estar aqui é bom, intensamente bom.

A gaivota desenha no ar sua escrita rebuscada, dizendo o mesmo. Devo às gaivotas o vôo que pratico em sonhos. Todo mundo já voou em sonho. É talvez o maior prazer desta vida, produção máxima da imaginação: de repente, nem sei porquê, estou voando! Razantes, mergulhos, planagens: vôo de gaivota. Quem não fez? Já voávamos antes dos aviões. É com reverência que assisto os aviões... Da minha janela os vejo passar a caminho de São Paulo. O avião é um símbolo do heroísmo humano. Voamos. Em oito horas, Nova Iorque, Lisboa. Eu fico besta...

Divagando, divagando acabamos voando... Vem entrando uma névoa úmida, friinha... O tempo finge que vai chover... As crianças fingem que brigam... A moça finge que não quer beijar... A gaivota faz só que vai mergulhar... O surfista desiste de descer na onda... O mundo faz seu charme, todo seda e véus.

Desse ímpeto natural ao fingimento - digamos assim - nasce o teatro. E também a filosofia, as noções de verdade e falsidade. Engraçado, não? É como se houvesse, na raiz de tudo, uma ambigüidade prévia, essencial, irredutível.

Divago... Gosto também desses vôos de pensamento. Às vezes, não dão em lugar nenhum, mas calculo que também as gaivotas não voam só pra onde tem peixe... O que eles chamam de metafísica é mais ou menos isso que estamos fazendo agora, leitor, sentados aqui, de frente pro mar, em silêncio, eu e você, cada um na sua. É tentar achar palavras que dêem conta da incomunicável satisfação de estar vivo, em comunhão com o mundo.

É perceber a aparente contradição, a ambigüidade irredutível dessa "incomunicável comunhão". Esse misterioso estar junto através das palavras, por meio delas, por dentro delas, desenhar um quadro, uma foto e legendar embaixo: "Às vezes me comove como é tudo tão bonito". E, ainda mais espantoso, ter a certeza íntima, prévia, que você estará lá, comigo, de frente para o mar, diluído na paisagem, sem carecer de palavras.