26 de março de 2001
Oitenta anos

Minha mãe fez oitenta anos. Entre os presentes que lhe dei, o principal foi um poema em prosa de Drummond que encontrei por acaso em uma pesquisa que fiz na Internet em busca de textos de Mário Faustino, uns poucos dias antes do aniversário dela. Emoldurei o poema em um porta-retrato e lhe dei como se fosse o meu silêncio reverente em face do mistério de seus oitenta anos. Diz assim o poema-prece de Drummond:

"Por que Deus permite que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:
Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho
e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho."
Mas o verdadeiro mistério, o mais profundo e inacessível, eu só percebi depois, quando lhe entreguei o poema e vi brilhar em seus olhos, intacto, todo o amor que ela sempre me dedicou. Intacto, inalterado, como se eu tivesse acabado de nascer. E então compreendi, não com palavras, não o sentido, mas a presença do mistério que é dizer: "Ela é minha mãe".

E quando a abracei - ela pequenina e encurvada pelo peso dos anos - e seu rosto aconchegou-se na sombra do meu peito, senti que meu coração bebia daquele amor direto de seus olhos, como o animal que no fim da tarde desce ao rio para saciar sua sede. Senti, como o animal confiante, que aquele rio estará sempre ali, matriz e fonte de toda a vida que há em mim, sempre pronto a me nutrir, inesgotável. Aquele corpo fui eu e ainda é - e esse amor da mãe por seu filho é a própria vida, sua essência primordial.

Ficamos assim abraçados, por longos e calmos segundos, eu lhe afacando os cabelos brancos e sedosos, ela quieta, os braços em volta de minha cintura. Ficamos assim, e era o amor - incondicional, intenso, eterno - que eu aceitava em mim como um destino numa eucaristia íntima que me convertia finalmente em homem. O amor é missão, me ensinava minha mãe em seu silêncio. Não é à morte que estamos condenados, mas ao amor - e a vida será o que fizermos dele. Aceita esse amor, meu filho. Aprende. Ensina. E serás feliz.

Depois nos sentamos à mesa cheia de bolos, doces e pães - só nós dois e todas as minhas tias, suas quatro irmãs, mulheres de um outro tempo, mulheres antigas, forjadas no trabalho e no sacrifício, fiéis e solidárias que, com alegria, se amparam umas ás outras, em sua viuvez. Todas tão lindas, tão meninas em sua alegria. Éramos, sem o saber, a humanidade inteira celebrando o que em nós pode haver de melhor. E o fizemos bem e a soma dos anos já não nos pesava.