26 de novembro de 2001
Atentados à inteligência

Nem carro de auto-escola tem dois volantes. Só a seleção do Scholari. E nem seria esse o problema se os tais volantes fossem craques. Mas até agora só teve volante duro, roda-presa. Como o Felipão anda ouvindo até os astros, achei que já era hora de eu derramar sobre ele a minha luz. Pois bem, se o negócio é rodar com dois volantes que cubram as avançadas dos laterais, a solução é simples: Cafu e Roberto Carlos passam para o meio-campo e Beletti e o tal Edimílson ou um outro tornam-se titulares. O resto é fácil. O meu time se completa com Ronaldinho Gaúcho, Denílson, Romário e Edílson. Há uma infinidade de combinações possíveis, com outros tantos jogadores, que podem ser usadas também ao longo de um jogo. Qualquer uma é melhor que a do Felipão.

Mas quero justificar minha escalação. Primeiro, acho que Roberto Carlos no meio-campo pode ser a grande surpresa da Copa. Roberto às vezes me lembra Gérson, pela precisão dos passes e a potência do chute. Romário ainda é o melhor atacante do mundo: ninguém se coloca melhor em campo do que o Romário no futebol mundial. Isso sem contar o toque de primeira e o drible desconcertante. Edílson literalmente "ganhou a posição" e Denílson é uma festa.

Para encerrar, que se imprima que sou fã do Dida, do Juan e de um zagueiro do Atlético Mineiro chamado, se não engano, Caçapa. O que não falta é craque. A tal "entressafra de craques" é mais um "fato inventado" para explicar a burrice de alguns e verdadeira causa de tudo, que é o "lucrativo prejuízo" do futebol brasileiro.

Mas, pior do que aturar a seleção, é ter de engolir esse outro "fato inventado" que são os tais 19% do eleitorado da Roseana Sarney. Uma coisa é inventar a rainha dos baixinhos. Outra, inventar um presidente. Nós já vimos esse filme - já passou até no cinema, tem em qualquer locadora. Está na memória de todos. Um filme se chama "Mera Coincidência", com De Niro e Dustin Hoffman. O outro, se chama Era Collor. Os dois filmes acabam mal.

O quadro sucessório já era de uma mediocridade espantosa antes do advento de Roseana. Agora, chega a ser aterrador. Porque entrou em campo o "poder manipulador", provavelmente o mesmo que inventou Collor. Não se trata apenas de fabricar um candidato como quem faz um produto. É pior: o que se está fabricando são fatos políticos.

A receita é mais ou menos assim: contrata-se o maior publicitário do Brasil. Criam-se anúncios, programetos políticos, e um "plano de mídia" eficiente. O "produto" aparece, vira notícia a qualquer pretexto, graças à "mídia amestrada" (copyright Hélio Fernandes) . Depois, é só encomendar uma pesquisa bem dirigida e pronto: a farsa torna-se um fato.

É uma audácia e um atentado à inteligência dizer que Roseana tem 19% de seja lá de que eleitorado for - até do Maranhão! Ela ganhou a eleição para governador em cima da hora, por apenas um por cento dos votos - o que no Maranhão deve ser uma ninharia!. E, tem mais: Roseana só ganhou depois de inventar uma história contra o tal Cafeteira - que pelo nome já se vê que também não é café pequeno - que se provou na justiça ser uma grossa mentira... Isso em um estado onde o pai se pretende rei, mas na hora de se eleger senador tem que migrar para o Amapá! Amapá, amigo... Precisa dizer mais!? É.. Sarney, que passeava de limusine rosa em Nova Iorque, nos tempos de presidente, é senador pelo Amapá.

E agora, Roseana tem 19% do eleitorado... O que ninguém pergunta, o que ninguém diz: quanto terá custado essa campanha? Quanto Nizan Guanaes ganhou? Quem pagou? Parece piada! Mas ninguém sequer ri. Passamos, repito, a admitir essa farsa como um fato a força dele repetir-se.

Pra encerrar, o caso Soninha. A moça foi dispensada da TV Cultura porque declarou numa revista semanal que fazia uso eventual e recreativo de maconha. Na nota em que justificava a demissão, a direção de TV fez questão de ressaltar que o critério não fora técnico. Portanto, o uso da substância não afetava o desempenho profissional de Soninha. A decisão da TV foi puramente moral. Soninha foi punida por um delito de opinião e comportamento. Punida pelo patrão, alguém que sequer tem poder legal de fazê-lo pela razão alegada. E que, por dever de ofício, deveria estimular e defender a livre circulação de idéias e opiniões - a liberdade de expressão, enfim.

Resumindo: é mentira que faltem craques. É mentira que Roseana tem 19%. É hipocrisia demitir Soninha.