30 de abril de 2001
A doidinha

Uma doidinha se instalou na calçada em frente do meu prédio. É uma mulata que não deve ter mais de vinte e poucos anos, bonitinha de rosto e de corpo, mas imunda de cheirar mal, a camiseta e o short polidos de sujeira, a pele recoberta de placas negras. Há uns três ou quatro dias que ela está lá, sempre no mesmo lugar, ao lado de uma árvore, quase na beira do meio-fio. Passa quase todo o tempo sentada de costas para os transeuntes, absorta em pequenos e quase secretos afazeres. Catar piolhos da cabeleira afro, por exemplo. Já a vi também brincando com um punhado de terra e pedrinhas que deixava escorrer dos dedos lenta e delicadamente na palma da outra mão, num movimento regular como o de uma ampulheta. Acho que foi dessa vez que ela, sentindo que eu a observava, se virou e por cima do ombro sorriu para mim, os dentes muito brancos e os olhos luminosos. Uma criança feliz...

De vez em quando ela sai, não sei se para procurar comida ou simplesmente passear. Deixa seus sacos de supermercado no canteiro - um para o lixo, outro para seus pertences - e sai. Mas não vai muito longe: logo está de volta, sempre para o mesmo lugar, exatinho. Aquela é a sua casa agora e no seu cantinho quase ninguém a vê: para quem olha da rua ou da outra calçada, ela fica oculta pelos carros estacionados. E quem sobe pela calçada deste lado não a vê por causa da árvore. Só quem desce no sentido oposto, em direção à avenida, pode vê-la. Mas ela é tão discreta e silenciosa - e a miséria tão cotidiana - que é possível que chegue a passar despercebida.

A maior parte do tempo, no entanto, o que ela faz é dormir. Sempre dá um jeito de não se esticar muito, as pernas dobradas de tal modo que ocupa apenas um pouco mais de espaço que o canteiro que abriga a árvore. Quero dizer que, até deitada, ela não chega a ser um estorvo para os passantes. Mesmo assim, sempre parece tão confortável e à vontade como se o mundo fosse a sua casa. A graça com que ela dorme, leitor, é encantadora. Parece uma menininha grande, uma ilustração de livro infantil: às vezes, deita-se de bruços, as pernas dobradas para cima, o rosto aninhado nos braços. Outras, deita-se de barriga pra cima, os braços apoiando a nuca, os joelhos dobrados. Só quando cai em sono profundo é que ela se deita de lado, ao longo do meio-fio, meio encolhida para não atrapalhar.

Mas a expressão do seu rosto é sempre tão pura e, pode-se mesmo dizer, alegre e feliz, que ela, nesse pouco tempo, parece já ter conquistado a simpatia de algumas pessoas da rua. Há sempre um pacote de biscoitos do seu lado ou uma quentinha com restos de comida. Eu mesmo já descobri que ela adora banana. E maçã também. Mas não gosta de pão. Andei até pensando como dar um banho nesse bichinho mudo que apenas sorri - feito um anjo distraído que tivesse escorregado das nuvens... Nenhuma solução me pareceu plausível. Acontece que doida ou não ela é uma mulher feita - não ficaria bem...

A verdade é que, vira-e-mexe, me pego pensando nela com o mesmo carinho que dedicaria talvez a um bicho de estimação. Pode soar mal a ouvidos delicados ou hipócritas dizer assim, mas, se compararmos, os gatos vadios do Aterro levam uma vida melhor... Ela, esse bichinho vadio e sem nome, só precisava de um banho e de uma roupa nova. Casa, pelo visto, ela já tem. Pelo menos enquanto não chover ou a expulsarem dali. Tenho medo que alguém a maltrate, com tanto senador solto por aí...

Sério, penso na minha doidinha, tão quieta e inofensiva, enquanto ouço dois ilustres senadores da república mentirem com a maior convicção, alternando entre a arrogância e as lágrimas - vossa excelência, pra cá, vossa excelência, pra lá...
Quem são os loucos, leitor? Ou melhor: quem são os nossos semelhantes, afinal? E a mim mesmo pergunto - e só a mim: com tanto cara-de-pau no caminho, por que eu ainda me envergonho e reluto a cada gesto de carinho e compaixão?