30 de julho de 2001
Vexames

Sigo com cautela por esta madrugada de sexta-feira, depois de uma semana de vexames. Vexame atrás de vexame. Começou na segunda-feira, a longínqua segunda-feira passada, quando o Brasil perdeu para o Olaria. Objetivamente era Honduras, mas lá no fundo da realidade, aquilo era o fantasma do Olaria. Honduras entra na história do futebol brasileiro mais ou menos como o fantasma do pai de Hamlet: anunciando uma tragédia. A coisa está tão preta que chego a pensar que a solução é o Gerald Thomas no lugar de Felipão. Ou o Zé Celso.

A própria crônica publicada na segunda-passada, lida depois do jogo, se tornou um vexame. Não de proporções trágicas como a derrota para Honduras, mas igualmente vergonhoso em seu quase anonimato de vexame íntimo. Talvez o leitor não lembre - o que já será um favor - mas abusei do lirismo para falar dos dribles de Denílson, dos passes de Juninho Pernambucano, do poder de comando de Felipão. Terá sido cegueira, burrice, desconhecimento ou falta de caráter? Eu esperava goleada e baile e quando vi tinha sido derrotado pelo Olaria. Rídiculo, foi como me senti. Reli a crônica e me senti rídiculo, piegas, de um lirismo fácil cheio de chavões. Senti que em vidas passadas teria sido um tal de Natalício Manhoso, praticante da arte fácil do elogio, sempre disposto a pegar carona no menor sinal de sucesso alheio.

Natalício era uma carpideira às avessas: só não chorava. Discursava. Engendrava metáforas, recuperava adjetivos, fazia luzir com suas falas o mais reles zagueiro do Azerbadijão. Ter Natalício Manhoso em uma noite de autógrafos jogando a favor era garantia de mais livros vendidos. Eu, sem lhe repetir o brilho, fiz o mesmo com a seleção. E durante uns dias andei embriagado com o texto. Embriagado é mesmo a palavra. Depois de escrito, qualquer texto fica nos ressoando na cabeça, quase mítico - puro brilho e ressonância. Ainda mais se for ruim! São os textos ruins que soam melhor, por incrível que pareça. Lá dentro, onde as palavras giram veementes e silenciosas, não há texto que, logo depois de escrito, não retumbe bíblico: o surdo ouve o que quer.

Aí, vem o jogo e me desaba sobre a cabeça. Não quero fazer drama. De trágico, já basta o futebol. Mas o contraste entre texto e realidade era como descobrir-se de repente vestindo um pé de cada meia.

Depois, veio o vexame dos herdeiros da música Garota de Ipanema. Natalício Manhoso tudo que havia de querer desta vida era ser herdeiro de Garota de Ipanema. Corre a lenda que é a segunda música mais tocada do mundo. Foi certamente o porre mais rentável da história da humanidade. Era verão, e da varanda do Veloso, Apolo e um sátiro viram passar uma ninfa... O resto é história.

Ou mais que história, monumento: Garota de Ipanema está incorporada à paisagem do Rio como o Pão de Açucar, o Corcovado, o Convento de Santo Antonio, o bonde de Santa Teresa. Eu, como Natalicio, tenho especial simpatia pelos herdeiros, achando uma nobilíssima, por seu caráter, digamos, cármico, uma nobilíssima forma de vagabundagem.

Concordo mesmo que existirá sempre o risco do mau uso da expressão Garota de Ipanema. Mas ninguém pode querer impedir a existência da lavanderia Garota de Ipanema, da casa de Ferragens Rei do Futebol, das lojas Rei da Voz. Dane-se. É do jogo da vida ninguém ser critério ou medida de nada.E ainda mais: a mulher foi a musa que inspirou a música! O título de Garota de Ipanema é dela. E dado justamente por Tom e Vinícius! É ela a garota de Ipanema que um dia passou num doce balanço a caminho do mar... É um vexame que já não se possa morrer em paz.

Pior, já não se pode nem mais tocar tuba em paz. Explico: aqui do lado da Tribuna, um antiquário pratica a magia ritual de se transformar em bar todas as noites e servir de palco para grupos de música popular como o Tio Samba, uma "orquestra brasileira" completa com violão, cavaquinho, pandeiro, surdo, flauta, trombone, sei lá o que mais e... tuba.

Pois não é que roubaram a tuba dos caras? Quer dizer, roubaram o carro do tubista e a tuba foi junto. É um vexame que o Rio de Janeiro tenha ladrões que levam tubas inadivertidamente. E não devolvem! Se tivéssemos um obsessivo ladrão de tubas seria até romântico e smpático. Mas não, levaram a tuba sem querer. Acontece, ok. Mas não lembrar de devolver!? Vai fazer o que com uma tuba? Trocar no morro por papel?

Não consta ser pecado roubar tubas. Digo, roubar já é genericamente um pecado. O que não há é um adendo especificando que é agravante ser tuba o objeto roubado. Mas parece que os anjos têm especial predileção por sopros e metais - nuvens, enfim, são feitas de ar - e sempre dão um jeito de faciltar a vida de quem se procupa com as tubas próprias e alheias.

Pois imagine-se o desamparo de uma tuba seu o seu tubista! Sempre se arranja quem saiba tirar umas notas de um violão, mas uma tuba sem seu tubista o que é? Peça de decoração? Estorvo? As moças mais sensíveis, os anjos e os poucos golfinhos da baía quase choram de pensar na desolação da tuba longe dos braços de seu tubista - pois que outro instrumento se toca assim abraçado? A harpa talvez - e o que mais? Não importa. É tão brutal o sumiço de uma tuba que devia ser considerado seqüestro.