1 de julho de 2002
Campeões

Escrevo na madrugada de quinta-feira, depois do jogo contra a Turquia, que nos classificou para a ontológica final contra a Alemanha - e que agora já é passado. Ontológica porque será (e certamente foi) o embate entre a força e a arte. Entre a aplicação e o improviso. Entre a cadência da valsa e a do samba. Ontológica porque desde 50, com exceção de 78, só deu Brasil ou Alemanha na final, sem que os dois jamais se tivessem enfrentado fosse em que fase fosse. É uma decisão, mais do que uma final, onde o futebol pergunta a si mesmo como um Hamlet de chuteiras: ser brasileiro ou ser alemão? E o resultado há de determinar seu destino até a próxima eternidade.

Tenho fé que seremos campeões.

Aliás, até domingo às oito e meia da manhã serei para sempre campeão do mundo. E saiba o leitor que, do agora em que escrevo ao agora em que teus olhos deslizam por estas linhas, por todo esse tempo, eu fui (e ainda sou) um campeão do mundo impávido que se ostentava estrelado sem o menor pudor diante das hordas de céticos e pessimistas de todos os credos e matizes.

Saiba o leitor que fui (e, portanto, sou) um campeão irrevogável - de sentir a grama acariciando meus pés descalços - e este título, imaginário e possível, esse não há Alemanha que me tire. Sou campeão até segunda ordem, até que a realidade venha confirmar ou impugnar este título de sonho, tão mais intenso talvez até do que este que nos oferta a realidade de hoje, segunda-feira, quando a conquista de ontem já será passado pois a vida segue como sempre ávida do presente.

É, portanto, ao som do mar e à luz do céu profundo que antecipadamente fulguro envolto nessa flâmula e respondo a todos aqueles que, depois do jogo contra a Turquia e mesmo agora, andam falando que a seleção jogou mal, que devia ter goleado, que a defesa falhou, que o time deu muita sorte - na verdade, a esses eu não respondo. Não disse e nem digo nada. Olho e olharei a todos eles com o desdém que só dedico aos bêbados chatos e a mais ninguém. Bêbados chatos é o que eles são e serão pelo resto de suas vidas - e com o agravante de não terem bebido nada. Não entendem nada nem de futebol nem da vida.

Falam como se jogar uma partida de Copa do Mundo fosse o mesmo que entrar no meio de uma pelada com a barriga cheia de churrasco, depois de tomar umas cervejas. Só mesmo o sujeito que se tornou um fã incondicional do Galvão Bueno para perder a sensibilidade de perceber que aqueles minutos que a ele custam horas pra passar, lá dentro do campo, para aquelas formiguinhas que correm na tela, esses mesmos minutos têm a lenta densidade das tragédias pessoais mais autênticas e legítimas. Aquilo tudo se passa sobre o peso de incontáveis atmosferas e só não se desintegra na nossa cara por razões que a Física ainda não sabe explicar.

Nem falo do um bilhão de olhos sobre a tela pois isso talvez seja até o mais fácil de abstrair quando o sangue esquenta e corpo começa a correr por ímpeto próprio. Falo do que ali, naquele jogo, é vida ou morte, à vera.

Aquilo não é um jogo de futebol. Aquilo é uma batalha. O torcedor com a cara ainda cheia de remela não se dá conta que aqueles homens estão lutando uma guerra que só pode ser vencida com habilidade mais do que força, ainda que uma e outra não possam faltar a quem pretenda chegar ao fim vitorioso.

A Copa do Mundo é uma competição de 7 jogos em 30 dias onde quem perde está fora e aí, quem sabe, na próxima encarnação ou daqui a quatro anos, depois de encarar tudo de novo, desde a eliminatória, você possa chegar lá de novo.

A única coisa parecida com a vitória numa Copa do Mundo é a Salvação Eterna. Acho até que o jogador quando leva uma Copa ganha secretamente passe livre para o Céu e aos olhos de Deus vira santo. É necessária tanta sorte e tanta disciplina, tanta força e tanta habilidade, tanta paciência e tanta ousadia, tanta violência e tanta ternura, tanta conciliação de opostos que ganhar uma Copa só pode ser uma forma de transcendência.

Enfim, a Copa do Mundo é a competição mais difícil entre todos os esportes. Não é uma mera taça, mas o Santo Graal. Exigir só goleadas suntuosas e exibições de um virtuosismo quase circense como se fosse moleza é de uma burrice cruel e criminosa. Eu diria mesmo sintoma de alguma coisa... O sujeito devia ir a um médico... Pode mesmo não ser nada sério. Afinal, não é fácil ser torcedor às seis e meia ou às oito e meia da manhã, e passar um mês misturando sonho com noite mal dormida. Faz até mal... A mim, salvou a fé. Confesso que nos momentos mais críticos de todos os jogos aproveitei para dormir, tamanha minha cega confiança.

E tenho certeza que hoje já sou só mais um brasileiro rouco e insone, embriagado de glória.