2 de setembro de 2002
Gênios

Ainda há pouco, na redação, a gente comentava sobre esses caras que de repente parecem que escolhem a loucura, o silêncio, o "estou fora" em face de um mundo que se revela subitamente estúpido, sem sentido, mas inflado de empáfia feito um Napoleão de hospício.

Citaram o exemplo de Glen Gould, o pianista que no auge da carreira desiste de gravar e tocar. Mas há tantos - agora mesmo estou ouvindo Chet Baker cantando Imagination em Let's Get Lost... É, também me perco na imaginação, todos nós, Chet Baker é outro... "Imagination is funny, it makes a cloudy day sunny. Makes a bee think of honey just as I think of you" - com um tal de Frank Strazzeri ao piano... Ah, leitor: é cd imperdível, desses que não dão nem trabalho ouvir, trilha sonora da vida.

Chet Baker - e imediatamente eu me lembro de Cortàzar, grandisíssimo cronópio, e de seu Dom Quixote moderno que é O Jogo da Amarelinha e digo: o que não falta é gênio neste mundo.

Não é que o gênio seja raro. Raro é ele sobreviver. As cadeias, os hospícios, os botequins e as praias, as quitinetes e as noites estão lotadas de gênios. Mas eles morrem com uma facilidade imensa. Ou enlouquecem, matam e morrem, se embriagam e se viciam, caem de janelas, se afogam, são atropelados em estradas desertas, somem... " Neste momento, cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu e a história não marcará, quem sabe?, nenhum...".

Eles não sobrevivem. O mundo não os quer e escarnece deles. Ou os mata a pauladas ou os venera - aqueles poucos que, por malícia ou sorte, resistem e sobram.

Digo isso porque uma cultura, um país, uma civilização se mede é pelo modo como trata os seus gênios que não dão certo. Opera-se uma grande inversão quando agimos como se o gênio fosse um comum melhor - quando o gênio é um maluco que deu certo, um doido que encontrou a sua fala. Quero dizer que gênios e malucos são gente da mesma estirpe e o mundo não deve mais a um rei do que a um barão faminto. Ou, dito de outro modo: quem rejeita seus doidos, não merece seus gênios. Ou ainda: quem trata mal o mendigo não merece o Chico.

O mundo gira e a Lusitana roda embalada por duas forças, casalzinho primordial, adão e eva do mundo e do pensamento: criação e conservação. O grande erro é imaginar que elas são- ou pior, têm de ser - igualmente distribuídas. Não! Para que tudo funcione, para que a gente não tenha de inventar todo dia a roda - e ainda destrui-la de vez em quando! - é preciso que alguém cultive o que outro inventa e até rejeite quem deseje colocar algo novo no lugar.

Haverá sempre mais conservação e menos criação, enfim. E isso não é mal. É para ser exatamente assim. Esse mundo idealizado onde todos são gênios criativos, sem lugar para a santa mediocridade conservadora, é só um efeito consolatório desse horror que é o capitalismo moderno - onde a repetição é adorada sob o nome de ganho de escala.

Eu fiquei muito impressionado com o fato de em nenhum dos programas de governo - e olha que todos os candidatos são socialistas! - em nenhum programa de governo - à exceção das três vezes em que aparece nas 180 páginas do anteprojeto de programa do Partido Socialista - em nenhum programa de governo de todos os nossos risonhos candidatos a palavra felicidade aparece. Repito, isso me impressionou muito. O leitor pode dizer que sou um sujeito muito impressionável e eu responderia que não é à toa que estas são crônicas de amor e perplexidade.

Eu honestamente o que mais odeio nos ideólogos alemães - Kant, Hegel, Marx, Freud e mesmo Nietszche... - é essa promessa de mundos flamejantes de genialidades, elevadores lotados de Goethe, Beethoven surdos gritando no teu ouvido. Eu digo: há que se tratar bem os gênios - os notórios, os indecisos e os fracassados. Mas há que se ter também mais respeito pela honesta e preguiçosa mornice do domingo, do sujeito que desta vida só quer conforto e segurança, a simples felicidade de passar sem sentir dores maiores que morte em família e par de cornos na testa.

Isto, aliás, é o mais impressionante de tudo: como é que não é assim? Eu sou um desses de ambições modestíssimas; para mim, estar vivo já é um luxo magnífico - e ainda mais se você foi sorteado pra cair no Rio, um lugar que faz dias de sol como hoje... Aí, leitor, olhando lá pra fora, não há como não sentir a tentação de Glen Gould de pedir o boné e sair fora....