4 de novembro de 2002
O ofício de escrever

Acordo cedo para escrever e me levanto um tanto zonzo, de má vontade, me sentindo um autêntico trabalhador. O ar mais fresco da manhã, úmido e frio, a explosão silenciosa do vermelho no horizonte longe, a ausência de sombras na límpida claridade, os passos ressoando ainda escassos na calçada lá embaixo: tudo isso cria em mim um sentido de dever. "Avante, cronista! Eis a manhã." Nada parece velho, gasto, mas maduramente novo, como se já nascesse no apogeu de suas forças, súbito brotar de flor. "Avante!"

Lá vão as gaivotas ondulando o ar feito rabiola desgarrada de pipa. O mistério regular delas, no seu vai-e-vem com hora certa, me fascina. Moram lá para os lados das matas da Tijuca, me disseram uma vez e eu acreditei sem titubear, pensando talvez nessa gente que vive na serra e vem trabalhar todo dia na cidade perto do mar. A gente é tão parecido com os bichos... Nisso, ao menos. Digo, nesse gosto pela regularidade. Gosto, não. Necessidade.

É espantoso o destino de certos bichos, aves e peixes, sobretudo, cuja a vida é um incessante ir e vir sempre entre os mesmos pontos distancíssimos um do outro, com o único intuito de se reproduzir. Cada um deles vive para que a espécie continue existindo. Essa é a sua missão, digamos assim, e eles a aceitam com uma resignação comovente

O homem tem uma situação mais priviligiada no mundo, mas nem mesmo nós, os modernos, que padecemos da ilusão de ter dominado a natureza, não podemos ignorar as estações do ano, as vicissitudes do clima, a assimetria de certos ciclos imprevisíveis. O Etna e o El Niño são exemplos, mas basta uma chuvinha mais forte e fora de hora para nos lançar num desamparo pré-histórico, ilhados sem guarda-chuva embaixo de uma marquise apinhada de gente

Acordo com fome e o cheiro do pão ainda perfuma o ar, manso sinal do dia se fazendo. O cheiro primordial do pão, como eu mesmo gosto de dizer. Posso esperar o bar abrir para tomar um café com leite, pão e manteiga, de pé, no balcão, junto com os outros que irão chegando devagar, silenciosos e sem pressa, dando bom-dia aos desconhecidos ao redor. A esta hora, tudo é ainda roça, nada permite deduzir, da rua calma, a imensa cidade ao redor: se nos fotografassem agora, ninguém depois saberia dizer quando e onde estávamos, se mesmo no Rio, se mesmo no século 21.

Só então estarei pronto para o meu ofício, este, de dar forma à crônica que o leitor finaliza com seus olhos pontuais. Agora tomo notas, rabisco, jogo conversa fora comigo mesmo. Ouço o silêncio.

O mundo está ficando tão barulhento, a música ruim tão onipresente, que qualquer dia ouviremos cds de silêncio. Lembro que em "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", Clarice Lispector fala no silêncio de Berna. Alguém, certamente um músico de vanguarda brasileiro, haveria de gravar o silêncio de Berna. Algum neto de Caymmi gravaria o sillêncio das noites à beira mar. As ondas batendo ao fundo, dolentes e compassadas. E quase se poderia ver a espuma efervecente contrastando na escuridão e no silêncio.

Ela (você) parece desconfiar do silêncio.

Eu insisto: só duas coisas são nossas genuinamente, só duas coisas, só duas, podemos dar genuinamente: o corpo e o silêncio. Tudo mais (e até as palavras!) é empréstimo.