11 de março de 2002
Agora é agora agora

Tenho umas quatro ou cinco crônicas prontas ou quase prontas - mas não é isso que eu quero agora. Agora eu quero o novo. Começar de novo, do ovo, desde o zero. Outro papo, puro improviso. Agora. No âmago, bem fundo - onde quase não há palavras. Agora.

Um estalo que espante a iusão de todas as histórias: sexo, poder, amor (mesmo o amor, sobretudo o amor) - ilusões que se tecem e se enrredam feito hera subindo por intrincadas paredes de pedra. Agora - eu quero agora. Puro e límpido instante sem histórias. Agora. E no entanto eles batem à porta e explodem em manchetes nas rádios e nos jornais. Com seus nomes, seus títulos, suas ameaças, esperanças e promessas, seus cálculos, balanços e prognósticos. Você acredita nisso? Você acredita nisso? Você acredita nisso?

Olhe bem à sua volta: você acredita nisso? A quem você ama de fato? Agora. Eu pergunto agora. Agora. Você tem agora? Ou sua vida é uma corrente de elos se sucedendo iguais? Uma corrente, um fio de tv a cabo: o filme da sua vida está chegando agora. Em que canal vai passar o filme da sua vida?   A sua vida? Onde está a sua vida? Ficou para trás, está lá na frente? Agora. A vida é sempre agora. Só agora. Onde está você agora?

Sim, você, leitor desavisado deste texto. Você está aqui agora? No mesmo mood, no mesmo feeling? Pegou o clima? Ou está achando este papo sem sentido, correndo muito à toa, oceano sem proa que lhe dê rumo? Não encontrará consolo nestas linhas, meu irmão. Aqui você só vai achar o áspero espelho do agora.

O que eles dizem pra você? É mais ou menos assim: "Pense uma palavra... Pronto. Ela vai aparecer mais adiante, embrulhada pra presente." Amanhã, depois, mais adiante... Não. Eu quero agora. Sacou? Tá ligado? Agora.

Vamos começar de novo: olhe em volta. Você acredita nisso? Nem eu... E o que a gente pode fazer?  Sair fora. Como? Não sei... Onde você quer ir? Não sei... Nem eu...

Só o que eu sei é que nisso eu não acredito mais... O que estou esperando então? Por que ainda concedo? Por que ainda cedo às etiquetas do sentido? Por que ainda tenho medo? Agora. Vida. Vida louca, vida breve, vida imensa. Eu só peço a Deus um pouco de malandragem...

Falando de mim agora: eu não acredito mais. Olho em volta e só vejo papo, máscara, canastrões que acreditam no papel e vivem aquilo como se fosse vida. Todo mundo recoberto pelo verniz transparente da ilusão mais reles brilhando sob a luz dos refletores. Se fosse uma novela deveria se chamar mesmo O Clone. Todo mundo. Num clipping vagabundo. E eu ainda insisto em querer ganhar dinheiro com isso. "Faça seu filme...". É isso aí!

>Cena 1: O diretor grita "Corta!". Born to be wild - Steppenwolf tocando no fundo. A câmera passeia pelos objetos na mesa, pelos rostos da rua, pelos retratos da vida. Montagem aleatória. Voz em off:

"Vamos começar de novo: olhe em volta. Olhe bem. Era isso? É isso? Então joga no bicho...

Que bicho pode dar isso? Macaco, gato, carneiro..? Olhe de novo. Agora. De improviso. Vaca, borboleta, cachorro, veado?".

Entram os letreiros.