12 de agosto de 2002
Quando eu era pequeno

Qundo eu era pequeno, achava que anúncio de TV era pedido de ajuda. Na minha cabeça, só anunciava quem estava com a corda no pescoço, precisando desesperadamente vender. Nós então tinhamos de ajudar, comprando os produtos anunciados, porque senão, coitado, o anunciante quebraria.

Outra coisa que eu pensava era que herói não ia ao banheiro. Claro, como ninguém aparecia em banheiro nos filmes, eu concluí que eles não precisavam. Era essa a marca principal da superioridade dos heróis sobre a gente, os espectadores: eles não iam ao banheiro.

Como se vê, eu, quando criança, era um gênio. Depois cresci e fiquei burro como todo mundo. Burro, não. Previsível. Acho que é nesse sentido que os gurus de todas as espécies falam em "recuperar a criança" que existe em cada um de nós.

Bom, se eu disser que quando eu era pequeno ficava invisível, ninguém vai acreditar. É bem verdade que até hoje eu sumo de vez em quando, mas invisível, invisível mesmo, eu só ficava quando era guri, lá pelos meus sete, oito anos. Não sei explicar direito, mas isso é história de minha mitologia ínfima e pessoal que, como toda mitologia, flerta abertamente com o inexplicável. O certo é que eu era capaz de - quase a descoberto, mas imóvel - não ser visto por quem às vezes passava rente. Eu me diluía na paisagem como um bicho à espreita, íntimo das sombras, tecido de silêncios tão flexíveis que me confundiam com o vento.

E como todo moleque, eu também via coisas... Os jogos e brincadeiras eram vividos com uma intensidade tão dramática que eu via os personagens e paisagens das minhas histórias se sobrepondo, sem conflito, à realidade comum.

Ah! Eu também era capaz de mover objetos, alterar a trajetória deles e me comunicar por telepatia. Claro, não era sempre ou sem esforço. Digamos que era quase tão natural quanto um salto mais arriscado que exigisse só um acréscimo de concentração e cálculo - e que às vezes não dava certo.

Sei lá porque conto tudo isso e nem sei onde quero chegar. Deve ser falta de assunto. Divago, enfim - e só agora me dou conta... Talvez seja isso, essa mente flutuante, sem horizonte fixo o que na vida adulta mais se aproxime dos estados mentais da infância. O platonismo tem uma palavra ótima: devaneio - que sempre me soa como alguma coisa entre a divagação e o delírio. Se fosse pra dar uma definição formal seria algo como "usar a imaginação para formar hipotéticos cenários possíveis" que podem ir se adensando de elementos e relações até o absurdo, como nos sonhos.

Mas há uma diferença fundamental, que me desmente: na infância, essa imaginação era também ativa, muito mais próxima do delírio. Eu não só via, no escuro dos olhos fechados ou absortos, eu vivia.

Compare o Largo da Carioca às três da tarde de um dia de semana ao pátio de uma escola na hora do recreio. Há muita semelhança -todos correm e ninguém se esbarra, por exemplo - mas algo irremediavelmente se perde... Não sei se é a alegria que se perde ou se devemos mesmo chamar de "alegria perdida" essa passagem do delirante ao absorto que nos faz parecer tão sérios depois que nos tornamos adultos.

Só sei que os adultos assim tão absortos, tão senhores de si, me paracem infantis. Não, não - infantis, não. Imaturos. A injustificável seriedade com que vivemos adultamente as coisas só me parece sinal de que algo vai mal, que a insegurança, a miséria ou a violência nos ameaçam, exigindo que fiquemos alertas, espertos demais para sonhar.

Mas vai me dizer que essa vida, cheia de preocupação e medo, isso é que é a tal "vida adulta"? Será que é para isso que nos tornamos adultos? Contei outro dia que andei lendo os programas de governo. Pois é, em nenhum deles aparece a palavra felicidade. Cá entre nós, isso dá o que pensar...