15 de abril de 2002
Oriente Médio

Imagine que você está em casa tranquilão quando de repente batem à porta e quando você abre são uns caras vestidos de índio que vão logo dizendo que são descendentes dos tupinambás que há cinco séculos viviam em uma tribo que ocupava exatamente o mesmo terreno do seu prédio e, portanto, são eles os verdadeiros donos do seu apartamento e de todos os os outros e por isso estão ali para tomar posse do que é deles. Mas, tudo bem, eles compreendem a sua situação e até concordam que você continue no apartamento, desde que pague um aluguel e obedeça às novas regras do condomínio que eles pretendem impor. Uga!

Parece piada, mas é mais ou menos assim que os palestinos devem estar se sentindo... desde 1948, quando o estado de Israel foi oficialmente criado!

Gente como Sharon só faz piorar a situação. Embalado pelo argumento delirante do suposto direito bíblico dos judeus sobre aquelas terras, Sharon está arrastando Israel à ruína. Com Sharon, Israel perdeu a perspectiva lógica e histórica da situação - o que representa um sério risco para o país.

Esse "direito bíblico" é o fundamento do sionismo. Só que o sionismo perdeu a razão de ser em 1948, quando a ONU criou Israel. Virou um fundamentalismo religioso - tão radical quanto qualquer outro.

Sharon é essencialmente um sionista. A maioria dos israelenses não é. Como todo fundamentalismo, o sionismo se resume a uma minoria armada e radical: não negocia seus objetivos. Sharon sabe que essa "escalada militar" é inútil. Em algum momento, terá de se retirar e assim que o fizer a tal "rede subterrãnea do terrorismo" se reconstruirá.

Só o ódio terá crescido. É isso que os fundamentalistas dos dois lados desejam. Os fundamentalistas árabes querem destruir Israel e expulsar os judeus. Os fundamentalistas judeus querem tomar toda a Terra Santa e reduzir os palestinos a "chicanos". Nenhum dos dois lados, portanto, quer acordo e sabem que cada homem-bomba que explode ou cada bombardeio aéreo só aumenta o ressentimento entre os povos e adia ainda mais a chance de acordo e paz.

Quando digo que Israel perdeu a perspectiva lógica quero dizer que os israelenses não podem negar a legitimidade de um estado palestino sem negar também a legitimidade do seu estado. Porque a mesma resolução que criou Israel pela divisão da Palestina imediatamente criou, por consequência lógica, o estado palestino. Pois, como chamar a outra metade?

Portanto, questionar ou negar a legitimidade de um é questionar ou negar a legitimidade do outro. Simples assim. Mas isso se pensamos sob a lógica "racional-humanista" que vê Israel como um estado moderno contemporâneo e não sob a ótica psicopata de um fundamentalista qualquer.

A perspectiva histórica Israel perde quando "esquece" outra obviedade de valor prático e ético: Israel é que é o invasor. Não vai aqui nenhum juízo, isto é, "invasor" aqui não tem um sentido negativo. Equivale ao sentido de "estrangeiro". Então, como todo estrangeiro, Israel é quem deveria buscar a conciliação, a acomodação, a paz com seus vizinhos.  É bom lembrar que já vinha nesse caminho. Até a ascensão da dupla Bush/ Sharon.

Os supostos "críticos do neoliberalismo" (acomodação de nomes para reabrigar os "intelectuais de esquerda", desempregados pela falência do socialismo, e a "crítica" do capitalismo que emergia triunfante dos escombros do socialismo derrotado), os supostos críticos, eu dizia, não perceberam que, como a queda da URSS foi uma revolução mais ou menos pacífica e popular, povo atrás de liberdade e consumo, o neoliberalismo ou a diplomacia do comércio, poderia ser uma espécie de NEP leninista global. Vendedores e corretores são cafonas e chatos, mas são mais seguros de lidar do que a obtusa arrogância militar.

Enfim, tenho a impressão que os Antonio Negri da vida não perceberam o potencial "revolucionário" do neoliberalismo. Nãop perceberam que o Império não era um monolito fechado e homogêneo, mas um organismo dinâmico como todos os outros, e que, se era pra apostar, melhor a "diplomacia do comércio", a utopia neoliberal do "capitalismo para as massas", do que essa "diplomacia das armas" que deu um golpe de estado e tomou o poder nos EUA, na cara de todo mundo, no melhor estilo tecno-gualtemalteca, isto é, invisivelmente evidente.