18 de novembro de 2002
Medéia às avessas

"Beleza não é nada", ouço a frase no balcão do café, vinda de algum desconhecido próximo, ao mesmo tempo em que meus olhos se fixam no rosto de Suzanne, perdido entre tantas outras fotos de outras tantas mulheres lindas que me tentam vender coisas nas capas das revistas que escorrem pelas paredes da banca em frente.

Falo de Suzanne, a moça que matou os pais em São Paulo. Parrícidio é o nome do crime. Um tabu tão forte que, até onde lembro, nem as tragédias ousaram tomá-lo como tema. Lembro, sim, de dois filmes: "Terra de Ninguém", de Terence Mallick e "Nascidos para Matar", de Oliver Stone.

Suzanne é uma Medéia às avessas. Matar os pais é uma espécie de secreto suicídio. Criatura que se volta contra o criador, efeito assassinando a causa para não deixar vestígio, negação radical da origem.

Apuro os ouvidos e foco melhor os olhos. "Beleza não é nada", o sujeito repete e faço questão de apenas vislumbrá-lo pelos espelhos do bar para que não se perca o laço entre a voz espectral e a foto fixada no ar que deu à frase seu vigor profético. Solta em uma conversa entre amigos, a frase soa banal, óbvia, despossuída até do charme vulgar dos ditados e das frases-feitas. Mas capturada assim ao acaso e contraposta às fotos de Suzanne, ganha inesperada densidade metafísica.

Será, de qualquer modo, sempre uma frase amarga. Em nossos momentos de doçura, imaginamos a beleza como um signo de perfeição. Pois é nosso amor que a envenena, dizem os legistas da alma. Estimulada por nossa idolatria, a beleza apaixona-se por si mesma e torna-se cega a tudo mais e daí em diante nada mais é obstáculo para seu egoísmo triunfal. As capas de revista não parecem desmentir a hipótese.

No entanto, só uma coisa me parece evidente: o profundo e minucioso ódio que Suzanne sentia contra os pais. Nem amor, nem indiferença. Ódio. Um ódio mudo e impotente, fixo e metódico, acumulado durante anos.

Parece que o pai assassinado mentia sobre seu parentesco com o lendário Barão Vermelho, segundo teria apurado a revista alemã Stern. Por ironia, Andreas, irmão da menina, praticava aeromodelismo e Daniel, o namorado assassino, vendia aeromodelos. Terão sido os aviões de brinquedo o pretexto para o primeiro contato entre Suzanne e Daniel? Ao final, terá sido o pai vítima da mentira que ele próprio contava sobre sua origem, única brecha na muralha que ele ergueu em torno de sua família?

"A Beleza não é nada", a frase ainda me ressoa nos ouvidos enquanto caminho na tarde chuvosa de volta à redação. Outra frase me ocorre, uma de Sartre que aprendi recentemente: somos aquilo que fazemos do que fizeram de nós. Dura, exata, ela não deixa margem a ilusão ou engano: não há como escapar da origem. Suzanne será para sempre a filha que matou o pai e a mãe. Suzanne será para sempre um desafio a nossa compaixão.