19 de agosto de 2002
Sonhos

A prudência recomenda que o cronista tenha sempre duas ou três crônicas prontas na gaveta exatamente para este dias em que nada de interessante lhe ocorre para escrever. Eu não tenho - ao menos procurei e não encontrei nenhuma. Ficamos então eu e o leitor à mercê do improviso. É verdade que passei a semana trabalhando não em uma, mas em duas crônicas. E trabalhava nelas até agora, quando finalmente me resignei à idéia de que elas não saíriam do lugar a tempo de serem publicadas esta semana.

Uma falava de um sonho que tive com uma amiga de longuíssima data. Acordei e nem bem me lembrava do sonho em si ou do rosto dela exatamente. Lembrava era de ter sonhado com a intensidade que a define em mim. Não sei se me faço entender, mas acordei carregado da presença dela - algo que eu podia sentir no corpo, a mesma agitação interior e benigna que a proximidade dela até hoje me provoca. Era isso que a identificava - mais do que a imagem do rosto - e foi engraçado descobrir, um tanto perplexo, que Emília é em mim um modo do amor.

E aí me dei conta que ela, Emília, foi fundamental para minha vida. Digo sem modéstia ou medo de errar que eu, na vida dela, não tive importância nenhuma. Mas ela mudou a minha. E achei essa descoberta também interesssantíssima. Há pessoas que determinam a vida de outras sem serem afetadas por elas em igual (ou nenhuma!) proporção. Não estou aqui tirando meus méritos de amigo. Nesse sentido, estamos no mesmo pé e podemos passar tempos sem nos ver que a intimidade ainda assim se reata ao primeiro olhar. O que digo é que foi por Emília que conheci minha primeira namorada, meus melhores amigos, a literatura de Drummond, Pessoa e Clarice - isto pra dizer o mínimo mais evidente que me ocorre logo assim que penso nela.

Aproveite o leitor para repetir você próprio o jogo de contar quem terá sido assim essencial em sua vida e para quem terá tido você esse papel. Feito o cálculo, qual será o seu saldo? Terá você, como eu, mais gente a quem se deve do que gente a quem se deu? Não falo de pais ou filhos, que esses são fundadores por definição. Falo de gente que veio um tanto do acaso ou do céu, como creia o leitor, pois não importa tanto a origem, mas o efeito.
Se ainda não fez esse jogo, faça. É divertido e serve para passar o tempo enquanto o sono não vem... Mas seja radical na avaliação. O nome do jogo até deveria ser "Se não fosse eu, se não fosse você...". De repente você vai descobrir que, por exemplo, salvou a vida de alguém no trânsito e nunca mais viu essa pessoa, mas não teve, para seus amigos mais próximos, importância tão fundamental...

Enfim, resumindo, o que me impressionou mesmo nessa história do sonho com Emília foi reconhecê-la não tanto pela lembrança do rosto, mas do sentimento único que ela me suscitava e suscita. E o sonhei na sua forma mais intensa, aquela incial e adolescente, matriz de todas as outras, mais atenuadas pelo tempo. Sabê-la assim em mim é algo que me tranqüiliza.
Mais doido é que, nesse mesmo dia, que era um sábado, saí para andar de bicicleta e dei de cara com as filhas dela passeando com o pai. Bicicleta que, aliás, lembro agora, era do pai delas: ele a deu para Alberto, que a passou para Federico, que a passou para mim...

Ah, sim! Só pra finalizar: de tarde, quando encontrei minha mãe, ela estava toda feliz, porque sonhara com meu pai, um sonho em que os dois namoraram muito, conversaram, os dois juntinhos, ela dizia, como numa foto deles na lua-de-mel, sentados agarradinhos na relva de um parque... Por causa do meu sonho, quando ela disse "felicidade" eu pude saber que não se tratava de algo morno e abstrato como um verbete de dicionário, mas de um sentimento vivo e presente de humana eternidade.

Uma vez uma repórter perguntou ao Christopher Reeves se ele às vezes não se sentia deprimido, ele que sempre fora tão ativo, por ter ficado paraplégico. Ele respondeu que não, porque nos sonhos ele sempre era pleno e são. Os sonhos o salvavam. Achei isso tão bonito que nunca esqueci...