22 de abril de 2002
Rocha que voa

Fui ver Rocha Que Voa, o documentário de Erik Rocha sobre a passagem do pai dele, Glauber Rocha, por Cuba, em 69. O filme é lindo, complexo e delicado ao mesmo tempo, de se ver com um sorriso salgado de lágrimas.

A última imagem que tenho de Glauber é dele em pé no alto de uma ladeira em Cintra, pálido, olheiras fundas, a barba por fazer, com um menino lourinho no colo - durante uns segundos profundíssimos a gente se encarou e eu quis dizer "oi, Glauber", uma coisa que eu jamais faria no Rio, mas ali em Cintra, tão só no início de uma longa viagem pela Europa, eu queria mesmo era dizer "oi, Glauber - eu sou amigo do Kim. Na verdade, eu sou brother do Kim... E aí, tudo bem?". Mas eu não disse nada e quando voltei à Cintra um mês depois, vindo da Grécia e disposto a falar com Glauber a qualquer custo, descobri que ele tinha morrido. Absurdo! Como custei a crer e como me doeu, eu que àquela altura mal conhecia os filmes dele e para quem Glauber era muito mais o primo do Kim do que um cineasta famoso.

Erik tinha três anos quando o pai morreu e acredito que fosse ele a criança no colo de Glauber naquele dia. Seu filme não é um documentário histórico, mas um documentário sentimental, digamos assim - e mesmo "anti-histórico", na medida que recusa a narrrativa linear e 'bem-comportada" que se convencionou atribuir aos documentários.

Quando Erik, por exemplo, colore de sépia certas sequências, eu não vejo nisso uma tentativa de "falsificá-las", envelhecendo-as. Eu vejo, sim, uma fórmula que representa com precisão a complexidade de sua busca: o sépia sinaliza o olhar evocativo de Erik em seu esforço de reconstrução amorosa da memória que tem do pai. A mesma coisa quando duas ou três sequências vão se repetindo ao longo do filme, repartidas em fragmentos ou repetidas com mínimas diferenças de ângulo e foco.

Pois, que memória pode um menino de três anos guardar do pai? Tente você, leitor, lembrar-se de si mesmo nessa idade e tudo que encontrará serão fragmentos de sons e imagens muito vagos e fugídios e umas poucas cenas que então você poderia misturar com fatos, fatos já sabidos do que chamamos de história.
O que será Glauber para Erik senão talvez uma voz melodiosa e grave que se mistura com o vento e o som do mar batendo numa praia? Quem sabe mais dois ou três fragmentos de imagens tenham restado na superfície da memória, mas o que haverá mais além no fundo? Erik revolve delicadamente o fundo, o seu fundo - que se confunde com a nossa própria História, pois é de Glauber que falamos.

Há, por outro lado, uma musicalidade no filme, no rtitmo de sua montagem que nos envolve de um modo quase imperceptível, mas extremamente eficaz: o tempo flui com uma "facilidade" que o inusitado da forma de início não permitiria supor.
Há ainda duas frases que ajudam também a entender o filme e toda a sua estética.

A primeira é de um cineasta cubano que confessa ter visões envolvendo a figura de Glauber. "Visões que se sobrepõem à realidade presente", ele diz mais ou menos assim. E essa palavra "sobreposição" quase que define e explica a complexidade do filme de Erik. O tempo todo, há essa sobreposição de imagens, de imagens e sons, de sons e vozes, de depoimentos antigos e imagens presentes. Erik recusa o "princípio realista" vulgar da sincronia entre imagem e som - que, no fundo, não passa de um uso redundante dos recursos narrativos - e cumula o espectador de informações simultâneas e complementares.

A outra frase é do próprio Glauber: "Sem linguagem nova não há realidade nova". Essa crença na relação de intimidade que existe entre consciência e mundo resume a filosofia que sustenta a obra de Glauber e Erik. Por isso, quando Glauber diz "Eu sou o Cinema Novo" ou "Eu sou a História do Brasil" não se trata da declaração de um neurótico megalômano, mas de um artista que alcançou com sua obra um "estado" de "total coincidência" - estado que o artista quer mostrar como perfeitamente acessível a todos que, junto com ele, recusarem a lenga-lenga ilusionista das novelas da tv e outros lixos intelectuais e filosóficos.

Enfim, é bonito ver a semente de Glauber, tão bravamente preservada por sua mãe, Lúcia (nome cuja raiz é a mesma de luz...), florescer com Erik.