24 de junho de 2002
A hipótese Soros/Negri

Quando Soros disse que, no tempo do império romano, só os romanos votavam e agora só os americanos votam, ele estava repetindo Antonio Negri e a tese que faz dos EUA "O Império", desde a queda da URSS, e interpreta a globalização como uma mera maximização dos lucros.

Soros e Negri dizendo a mesma coisa.... É de se rir. E já o riso soa como uma provocação que aponta para o que pode parecer o diagrama de uma conspiração. Dois pontos: Soros e Negri. Em comum, ligando os pontos, uma palavra que simboliza muita coisa: império. E que "esconde" exatamente isso: a velada e impensável relação entre figuras supostamente opostas.

Mas é possível ver os EUA de modo mais dinâmico - e não como um Império obtuso e monolítico - e a globalização como diplomacia do crédito em contraste chocante com a diplomacia da força que passou a vigorar a partir do 11 de setembro - episódio doloroso que deu a Bush a oportunidade de promover um golpe de estado de escala nacional e mundial, ao alterar radicalmente o fluxo do capital no mundo, impondo de uma hora para outra uma escassez de dólares que já arruinou a Argentina e ameaça mesmo arruinar o Brazil - e arrasar do jeito que só as crises financeiras são capazes quando atacam as economias: como uma bomba de neutrons - que preserva a máquina e mata o homem.

Visto assim é evidente que houve ou uma péssima interpretação do fenômeno Clinton/ globalização/ queda da URSS ou uma interpretação maldosa, propositalmente falsa, que mostrava os EUA como uma economia/cultura unívoca a dominar o mundo promovendo uma mediocrização que tinha no MacDonald's sua expressão mais visivel e "inteligente" - assim mesmo, entre aspas como a inteligência de um computador.

Trotsky prometeu um Goethe em cada esquina. A globalização prometia tornar a todos idiotas bem alimentados e felizes. A globalização era a socialização do boquete da estagiária no fim do expediente como o signo da prosperidade da classe média feliz. Se fosse pra usar uma imagem budista: a globalização vendia o capitalismo como o Grande Veículo - com a diferença que a Genética substituiria a Ética no aperfeiçoamento das gerações.

Quando o Estado começou a esmiuçar a vida sexual de um cidadão supostamente apenas para provar que ele mentiu quando obrigado a falar de algo que era de sua exclusiva intimidade, ali, na sádica violação da privacidade sendo feita nas nossas caras de virtuosos onanistas regidos por um promotor que era mais uma encarnação dessas típicas bichas ostenseivamente enrustidas tão comuns à vida pública - e que só a possibilidade de um processo me impede de citar exemplos - ali ficou clara a reação do Grande Capital contra farra do crédito que prometia o Nirvana em suaves prestações. Com o Pornô Show da Turma da Mônica, já começava a se engendrar a volta do Bush...

Mas a teoria imperial Soros/ Negri - burra ou maliciosamente, não sei - nos alinhava aos adversários de Clinton. Isto é, nós, "a inteligência do mundo", fizemos docilmente o jogo do grupo de Bush. E agora estamos assistindo passivamente o que é, de fato, uma política imperial "romana".

Não há como não ter saudades de Clinton... Como disse antes, a diplomacia do crédito foi substituída pela diplomacia do míssil. É o Partido da Guerra - que por incrível que pareça às mentes ingênuas é o que consegue juntar mais gente - porque óbvio funciona sem necessidade de consenso. No partido da guerra estão todos os fundamentalistas - inclusive os fundamentalistas do lucro. É a tese do Pequeno Veículo, que todo fundamentalismo encarna - pra completar a analogia budista feita antes...

A verdade, enfim, é que não percebemos que, se Clinton parecia ridículo, Bush (que era a alternativa correndo por fora todo o tempo) Bush parece diabólico - a começar por sua evidente fraqueza intelectual quase ofensiva. Bush representa a concentração da grana em ativos reais de alta rentabilidade e grande consumo de capital - como a industria bélica, a industria de energia, serviços públicos. E a guerra é um grande negócio, talvez o melhor de todos a curto prazo. Quem não leu Ardil 22, não sabe o que perde.

As legiões americanas se espalham pelo mundo à custa dos dólares que começam a faltar em toda parte - Argentina, Brazil, Uruguai (Não duvido que a intenção seja nos impor a dolarização explícita da economia). Minha dúvida é se teses como a hipótese Soros/ Negri eram mesmo para ser um obstáculo ou, na verdade, só jogavam a favor.