25 de novembro de 2002
Uma vez não é sempre

Morreu meu primeiro leitor. Era meu tio e digo que foi o primeiro porque, há quase três anos, quando estreei como cronista, não queria contar a ninguém, nem me pergunte o leitor porquê. Ninguém sabia. Mas, quando cheguei na casa de minha mãe para almoçar, meu tio, que era leitor habitual da Tribuna, já descobrira meu nome assinando este espaço e ligara para dar os parabéns, tornando pública - e definitiva! - minha estréia. Valeu mesmo, tio...

Por sua causa, minha estréia foi o que devia ser: um dia alegre, compartilhado por todos. Desde então, quase toda segunda-feira ele ligava para mim ou para minha mãe, irmã dele, para elogiar ou criticar a crônica publicada. Na quarta-feira, dia 13, ele ligou do hospital e contou que recortara a última crônica que lera antes de se internar, a crônica do dia 4. Gostara tanto que recortara, coisa que ele não costumava fazer. Recortara e guardara na mesinha de cabeceira, bem junto dele, tanto que se enamorara dela.

Não sei se vocês lembram, era uma crônica que falava da chuva, da separação, úmida de tristeza e ironia, de uma beleza cinza, melancólica. Ele gostou. Penso que gostou porque já se sentia fenecendo, ele que na sexta-feira se despediu da filha, minha prima, dizendo que seria bom se o homem morresse como a rosa, que ao longo da madrugada se desfaz, pétala por pétala, silenciosa e lenta, sem dor, como alguém que adormecesse para sempre.

Antes de desligar, ele me deu uma frase. Na hora, me soou enigmática, quase onírica, oracular: "Uma vez não é sempre". Agora soa-me como um irônico epitáfio. (Um desafio à morte, última bravata de quem quis ter sempre a última palavra).

Era sábado de um feriadão, a cidade estava vazia e todas as capelas do São João Batista ocupadas (o que, para mim, foi indício de que algum estúpido acidente de automóvel roubara muitas vidas).

Acontece que a capela do hospital estava em obras e acabou que ficamos só a família e uns chegados a velar meu tio numa sala improvisada, próxima ao vai-e-vem do almoxarifado.  Até gostamos: havia um clima de aceitação entre nós. Somos uma família de gente forte, que não acredita na morte, gente, ao mesmo tempo, dura e emotiva. Era sábado lindo de sol, e meu tio dera um jeito de reunir a família de um modo muito dele.

Morreu meu primeiro e mais assíduo leitor (sem contar minha mãe). Chamava-se Henrique Peixoto Filho, tinha 77 anos e foi enterrado coberto com a bandeira do Fluminense. Ele foi, se despedindo aos poucos. E morreu comum à rosa.