28 de outubro de 2002
Palavra tem dono?

Quer coisa mais brasileira, mais carioca, do que "oi"? O americano tem o "hi" (que se pronuncia "rai"), o italiano tem o simpaticíssimo "ciao", que se diz "tchau" (e que nós transformamos em despedida). A gente mesmo tem também o "olá", o "alô".

Certamente toda língua tem uma saudação assim curtinha, que se usa pra iniciar um papo sem a necessidade de nomes e apresentações. No lugar de desastrosas frases inteligentes, melhor um "oi" que saiba soar ao mesmo tempo vago e cheio de promessas - quase tímido, mas carregado de entusiasmo e surpresa. Um "oi" úmido de saudade boa, dessa que não dá tristeza depois, porque não vem malhada de remorso ou mágoa.

Quantas palavras não cabem num "oi" assim, leitor... Basta saber escandir essas duas vogais, tão simpáticas juntinhas, o I magrinho escorando o O gorducho. Isso! O "oi" tem a simpatia do Gordo e o Magro e, ao mesmo tempo, o poder sintético do 0 e 1.

"No começo era o Verbo. E Deus disse: "Oi!". E fez-se a Luz. E a Luz fez Carne. E de Carne e Luz fez-se o Amor", diria eu, num Gênesis moderninho e romântico inventado de improviso só para impressionar certos olhos.

Falo do "oi" com esta intimidade toda, porque sou um usuário antigo. Por caráter e profissão, sou um puxador de conversa, um perguntador. E o "oi" é a chave que me abre todas as portas, início de todo papo. E aí, de repente, o "oi" vira nome de coisa. Um objeto. Um celular, pra ser mais preciso. Um celular que, aliás, diz que não é um celular, mas um "oi".

Isso é um absurdo! Uma usurpação!

Imagino que a esta altura alguém já tenha registrado o "oi" como marca sua. Enfim, privatizaram o "oi". Claro, faz parte do plano não nos cobrar nada pelo uso do "oi". Até porque, a cada vez que alguém diz "oi", eles devem contablizar como ganho.
Lembro que o deputado Aldo Rebelo quis criar uma lei para proteger as palavras em português da concorrência estrangeira. Uma espécie de reserva de mercado vocabular que impediria o tal mercado de usar uma palavra estrangeira quando houvesse um similar nacional. Convencido do caráter antropofágico da cultura brasileira, não me preocupa essa briga: acho que as palavras acabam se entendendo... Agora, malandro se apropriar de adjetivos e outros vocábulos para batizar seus produtos - não dá!

Li não sei onde que um juiz americano rejeitou uma ação da Microsoft contra o uso da palavra "windows" na publicidade de outros programas. "Windows" (janelas) é uma palavra, e palavras são de domínio público. Pois é... Palavra não tem dono. Eu quero o "oi" de volta.