29 de julho de 2002
Menores

Eles estão de volta ao largo em frente ao teatro Cecília Meireles.
Eles, os menores - abandonados, carentes, infratores: que nome lhes dar?

Eu tinha até uma matéria marcada no Juizado da Infância e Juventude, mas quando os vi, de novo soltos na rua, perdi o ânimo. Também não tive coragem de abordar os meninos e meninas que se esparramavam pelos bancos - na deles, alheios ao mundo ao redor que os despreza. Senti medo? Não sei dizer - talvez lá no fundo, sim. Na superfície, o que senti foi impotência: nem um nome eu sei lhes dar: abandonados, carentes, infratores? E alguns deles, como chamá-los de "menores"? Definitivamente, não sou um repórter, mas um cronista... Não saberia o que perguntar ou dizer. Nem a eles, nem ao juiz Siro Darlan, nem aos promotores que, em nome do Estatuto da Criança, exerceram o dever de recolhê-los, na quinta-feira retrasada, dia 18.

Valeria a pena apurar para onde eles teriam sido recolhidos e porque ficaram tão pouco tempo fora das ruas? Teriam fugido ou simplesmente sido liberados? O Estado tem de fato o direito de mantê-los sob sua custódia? E nesse caso, terá condição de lhes proporcionar uma vida melhor do que esta que observo agora, de longe? - eles lá, à vontade, donos dos bancos do pequeno largo, mínima ilha entre rios de carros, mera passagem para os transeuntes que circulam entre a Lapa e a Cinelândia, entre nada e lugar nenhum, mas que para esses meninos e meninas é a única posse, ainda que precária, um lar a céu aberto, onde eles podem até rir, enrolados em seus cobertores Parayba e movidos a tiner, maconha de quinta e cocaína malhada.

Certamente, serão menos perigosos presos. Voltarão melhores depois de soltos? Eu duvido. O que fazer então? Não faltará quem diga que o melhor seria matá-los. E é o que as estatísitcas demonstram que acabará acontecendo...

Há um evento rolando na Lapa, um palco foi montado e os técnicos estão repassando o som. Tocam uma música percussiva, grave, oca, repetitiva que quer ser ameaçadora e excitante ao mesmo tempo, como a trilha de um filme policial. Música techno, suponho. É como se a cena dos meninos e meninas tivesse seu fundo musical e ocorresse na tela de um cinema hiperrealista, holográfico, tridimensional. O evento quer ser moderninho, bacana. A cem metros, os moleques estão vivendo na Idade da Pedra. Não duvido que qualquer um deles fosse capaz de matar alguém para roubar dez reais, mas também não há como não ter pena deles, "condenados a uma liberdade tão radical que exclui até o futuro", como eu mesmo disse na matéria que escrevi sobre o recolhimento dele das ruas. Tanto sofrimento me rendeu uma boa frase...

Em contraponto, o irmão de uma colega nossa aqui do jornal foi preso fazendo "gato" em um orelhão. Ele acabara de fazer 18 anos e nem precisava "roubar" impulsos telefônicos: na verdade, foi por onda e não necessidade que ele usou os serviços do "gato da moda" - um aparelhinho que, acoplado ao telefone, permite fazer ligações gratuitas. O irmão da menina foi pego em flagrante, numa tremenda bobeira, aliás.

Bem feitas as contas, não terá furtado da Telemar mais do que 50 centavos. Por isso, passou seis dias numa cadeia às custas do Estado, a família já gastou quase dois mil reais de advogado e outras despesas, e ainda terá de responder a processo.

A mim o que impressiona é a estúpida desproporção dos números: um furto de 50 centavos vai acabar custando à família e ao próprio Estado uma pequena fortuna, além de marcar para sempre a vida profissional do garoto.

Claro, um rábula argumentará que é o furto em si que está sendo punido e que não se pode ser tolerante com o crime. Responderei com o princípio simples de que o castigo não pode ser desproporcional ao erro - ou o que era pra ser justo se tornará simplesmente perverso.

Aliás, é isso: a justiça no Brasil tornou-se uma espécie de perversão. Um perversão que oscila entre a impotência (no caso dos menores) e a tirania (no caso do "gato"). Esse o monstro que criamos e que agora ameaça nos devorar. Só espero que a nossa "paciência de Jó" se esgote antes disso...