30 de dezembro de 2002
Programa de índio

A esta altura, quando você estiver lendo estas linhas, eu já estarei em um avião, a caminho de Brasília, para assistir à posse do Lula. Tento disfarçar o desânimo, mas depois de anunciado o ministério e os detalhes finais da pajelança populista promovida pelo nosso Goebbels baiano, Duda Mendonça, confesso que está difícil.

Cheguei a pensar em comprar um cocar, mas acabei mesmo comprando um terno. Mas irei sem meias à posse. Será uma nota de discreto ceticismo num traje pautado pelo rigor e a elegância. Não, na verdade, a situação é tão grave que não suporta ironia. Irei de meias e guarda-chuva, mas desabitado de alegria.

Não esperava nem festa, nem ministério suspeito. Esperava algo sóbrio e econômico. Todo mundo sabe que não há dinheiro. Abarrotados de títulos do governo, os banqueiros controlam o crédito e o câmbio. "Quer o dólar mais barato? Aumente os juros". A mídia amestrada se encarregará de chamar de otimismo a queda momentânea do dólar e justificar os juros por uma suposta inflação de demanda.

Falar de inflação de demanda em um país de miseráveis é perversão. Inflação de demanda é fetiche. O que há é demanda reprimida exatamente por falta de crédito. Satisfazê-la é um dever cívico: é para isso que todo mundo trabalha. A inflação gerada no processo é um fenômeno que se dilui ao longo dos anos, justamente pela satisfação da demanda. E ponto final. Mas não nos é dado esse tempo. O país foi posto na UTI e é monitorado mês a mês como um doente terminal sem futuro.

A esperança era que Lula se concentrasse em "limpar" a máquina do Estado para produzir um excedente que seria aplicado no Fome Zero e outros zeros. A retalhação do Ministério pelos partidos acabou sendo o primeiro zero do governo Lula. A velha prática de distribuição de nacos de poder é a Mãe de Todas as Corrupções.
Enfim, foi tudo ao contrário. A começar pelo presidente do BC. O sr. Henrique Meirelles é um caso raríssimo: um banqueiro americano nascido no Brasil. O cara não é pouca Boston. Indicação de Bush, diz-se - e a gente nunca sabe se é piada ou fato. Saiu do PSDB, como se o PSDB fosse partido de largar banqueiro. Saiu, mas deixou o paletó, digamos assim.

E como foi que o sr. Meirelles arranjou 180 mil votos em Goiás? Que se atribua votação tão expressiva a uma campanha milionária é algo que já deveria causar mal-estar. Mas, nada... "Continuaremos seguindo as mesmas regras do dr. Armínio...". É de vomitar - mas não se preocupe, leitor, o avião tem sacos pra isso.
No telhado de vidro do dr. Pallocci chovem ervilhas com molho de tomate, tamborilando em morse a lembrança de licitações passadas.

O sr. Mares Guia será ouvido nas investigações da morte de uma garota de programa mineira, junto com outros figurões da corte de Itamar. Diz que só a viu uma vez, em horário de expediente. Mônica Levinsky também atendia Clinton no horário do expediente. O passado remoto e recente do PTB, nos autoriza a pensar que o ministro seja seu melhor quadro.

Há ainda dois ou três serristas e um ex-concorrente desde já candidato à sucessão de Lula, que é Ciro Gomes. Sem contar o próprio Henrique Meirelles que, dizem, também quer chegar à Presidência.

Sei lá, nunca tive tão pouco prazer em escrever uma crônica. Logo esta, que eu pensava, há três meses, seria cheia de ânimo e esperança. Tomara que me engane, que haja um às na manga, um drible de Robinho, uma virada no placar. Mas o que eu sinto, lembrando Cazuza, é que Lula foi procurar abrigo no peito do seu traidor. Faz parte do seu show, Lula?