Amo essa amplidão de Brasília, a solenidade generosa com que a cidade se esprai planalto afora, imensa, mas íntegra com a paisagem. Fui feliz aqui, tenho amigos e vívissimas lembranças que me alcançam o corpo emocionado, enquanto te assisto, Brasília, da janela do hotel à noite e me sinto de novo acolhido na intimidade do teu silêncio.
À tarde, um arco-íris cobriu a Praça dos Três Poderes, luminoso e denso, exato como se desenhado à mão, para o deleite dos olhos do povo que passava pela Rodoviária em seu vai-e-vem cotidiano. Turistas tentavam abarcar com suas câmeras o arco imenso, arredio ao enquadramento das lentes acostumadas aos espaços exíguos de outras cidades.
Era como se Deus confirmasse aos homens a evidente esperança que já lhes habita o coração e transborda pelos olhos às vésperas do ano novo e da posse de Lula. Pergunte a qualquer um e todos dirão que estarão lá, sim, felizes e festeiros, satisfeitos de vê-lo apenas passar, ele, o presidente Lula.
Alheios às tramas da política, a confiança que dedicam ao novo presidente é a mesma que dedicariam a um pai, um filho, um irmão mais velho que, contra todos os presságios, tivesse "chegado lá". A cidade, úmida de emoção, tornou-se a capital da esperança. Não há, no coração dessa gente dura e voluntariosa, moradores ou visitantes, lugar para a dúvida. Eles têm certeza que finalmente chegou sua vez.
Contaminado por esse espírito, dissolvo a acidez de minhas críticas, dispo-me de todo ceticismo e me integro à multidão como Brasília ao Planalto. Estou feliz e emocionado e meus olhos também brilham, quentes e úmidos. Boa sorte, Lula. O povo está de mãos dadas com o senhor. Nenhuma lei, teoria ou equação econômica seria capaz de contabilizar o potencial de criação acumulado em tantos milhões de almas reunidas em torno do seu nome.
Governe com um olho no Congresso e outro na Rodoviária. É de lá que vem a força do seu apoio, é lá que estão os seus. Conte conosco e não nos decepcione.