13 de janeiro de 2003
Os olhos de Oscar

Voar é lindo. Quando saí do Rio há quinze dias, o céu estava limpo contra todos os presságios da meteorologia. A frente fria vinda do Sul finalizava talvez naquele instante seu lento cortejo de nuvens e se enfiava Brasil adentro, rumo ao centro-oeste, deixando o céu do Rio límpido e brilhante.

O avião fez uma curva de gaivota, seguindo do Santos-Dumont para Niterói, sobrevoou a entrada da Baía e foi se embrenhando pelo interior ao poucos, contornando o litoral, talvez para aproveitar ao máximo o trecho de céu azul. Porque diante de nós, um mar de nuvens leitosas se espraiava pelo horizonte afora e, eu descobriria depois, se estendia por todo o país.

Mas o Rio visto daquele ângulo inusitado, do alto de Niterói, mais ou menos sobre a praia de Camboinhas, é um delírio estético. A Baía de Guanabara quase inteira, abarcada num único golpe do olhar. Os contornos femininos do Pão de Açúcar em contraponto à imponência da Pedra da Gávea, dominando o fundo. Os rios serpenteavam lá embaixo, cheios de meandros voluptuosos. Dava para ver as casinhas, mínimos pontos espalhados pelas dobras da serra... Lindo.

"Na natureza não existe linha reta", não havia como não lembrar das palavras de Oscar Niemeyer, eu que rumava para sua cidade, Brasília. De Oscar Niemeyer, de Lúcio Costa e JK. Deles e de milhares de bravos anônimos brasileiros que se aventuram por aquelas terras vermelhas. Os candangos. Conheci alguns em meus tempos de Brasília, 15 anos atrás. Em cada um, brilhava no olhar a nostalgia dos tempos pioneiros, quando a necessidade igualava a todos no esforço comum e babélico de erguer em cinco anos uma cidade-modelo, capital da utopia e do sonho.

De todos as celebridades na posse, minha obsessão era encontrar Niemeyer. Queria pegar carona na sua emoção de ver finalmente aquela Esplanada cheia de gente saudando a chegada de um governo de esquerda ao poder - pacificamente! Porque a Revolução inscrita naquelas formas que são Brasília - o Plano-Piloto, os monumentos - é pacífica e intelectual. Aquele branco quase imaculado não se criou para o sangue de ninguém.

Mas não encontrei o Arquiteto. Não posso reclamar. Dei muita sorte na cerimônia de posse: eu e Márcio Moreira Alves fomos os únicos repórteres no Plenário da Câmara. Eu e uma assessora do presidente fomos os únicos a vê-lo chegar na garagem do Planalto. Vi também, símbolo íntimo de toda aquela festa, uma moça toda de branco subir a rampa branca do Congresso. Vi e ouvi muito mais coisas, enfim.

Mas não vi os olhos de Niemeyer. Não vi, mas posso imaginá-los. E fazê-los um pouco meus. Brasília merece esse olhar apaixonado.