20 de janeiro de 2003
Revolução digital

Dizer que a diferença entre hábito e vício é relativa é tolice. A diferença é quantitativa mesmo. Por exemplo, alguém tem o hábito de beber uma cerveja todo dia. Alguém tem o vicio de beber dez. A diferença quantitativa produz a diferença qualitativa: quem bebe uma não produz em si mesmo nenhum efeito relevante a não ser algum tipo de relaxamento. Quem bebe dez vive para isso. Seu corpo torna-se uma máquina de ingerir álcool. É um doente - e precisa ser tratado.

Essa equação entre qualitativo e quantitativo interessa porque o capitalismo é justamente essa administração do daescassez e do excesso. Buscar o equilíbrio entre demanda e oferta é o dilema da máquina capitalista. A equalização inibi o lucro. Uma sociedade mais zen, menos consumista, implodiria o sistema.

Nesse sentido, minha geração perdeu a batalha do comportamento. Pode parecer um mea-culpa babaca (ou se você preferir, boboca), mas o mundo era pra ser mais louco se "nós" tivéssemos mesmo tomado o poder como em algum momento "nós" imaginamos que seria inevitável. A revolução planetária: Paz e Amor no Poder. Mas "nós" era só uma minoria de doidões e a reação foi implacável. Os apóstolos começaram a ser dizimados, o amor livre deu lugar a aids e aos ícones sexuais, disseminou-se a cocaína e a anfetamina no lugar da maconha e do LSD, o capital expandiu-se para financiar o consumo. Bye-bye socialismo utópico que misturava John Lennon com Che Guevara.

E se no amor não fomos bem, na paz então foi pior ainda. Basta ler os jornais. Armas e drogas são os maiores negócios do mundo. Isso sem se falar na pornografia. A gente imaginava um futuro maconheiro, de portas abertas, muita música e tempo pra sonhar, sem ânsias de consumo, sem ter o que roubar e muito a dividir. Deu no que deu. Deu no avesso.

Outro dia, passei à noite pelo Baixo Leblon. As pedras já não gemem quando eu piso naquelas calçadas, nem o vento me vem sussurrar delírios. Fazia tempo que não passava por lá. Passeei anônimo e sóbrio, no balanço da memória. Fiz parte da segunda leva dos "nós" que ainda tentou resistir à onda conservadora triunfante. Não pirei, não morri, não me matei. Não ser ninguém e não ter nada são meus únicos patrimônios. Tornei-me quase imune à cultura de massas.

De sessenta até meados de 70, o mundo viveu um período de efervescência só comparável ao começo do século 20. Algo que começou lá completou-se na Revolução Digital operada a partir dos anos 80.

Estamos em pleno advento da Era Digital. Vivemos o momento da ruptura prática de um paradigma: o bom e velho princípio da não-contradição de Aristóteles esfacelou-se e a incerteza quântica da simultaneidade do ser e não-ser invade o cotidiano com seus lasers, fibras óticas, chips, etc.

Criamos, estamos criando, uma outra dimensão de mundo: a dimensão virtual. Cada coisa está ganhando uma forma digital, binária, que o torna virtualmente duplicável. Infinitamente. Há um conto famoso de Borges que ilustra isso. Os cartógrafos de uma civilização imaginária foram se tornando tão precisos na produção dos mapas que um dia o mapa acabou por coincidir com a região mapeada.

O mundo virtual, redução fiel do mundo real à sua forma lógica binária, já começa a recobrir a realidade. É impossível prever o que virá quando a digitalização se completar. Esse o problema de se viver um momento de ruptura: não temos literalmente nenhum futuro.