27 de janeiro de 2003
I love my bike

Morar ali onde Ipanema e Copacabana se encontram para formar o incerto retângulo de ruas vagamente chamado de Posto Seis, é mais do que mera coincidência geográfica, é um ideal metafísico. O sujeito tem ali quatro praias distintas, uma ao lado da outra, que ele pode escolher segundo as sutilezas da Meteorologia. Ipanema, Arpoador, Diabo e Cobacabana, Posto Seis. Quando o Sudoeste varre com força as areias de Ipanema e agita suas águas, o Posto Seis, por exemplo, é sempre um espelho d'água.

Mas a minha preferida é a Praia do Diabo. Mínima, fora de moda e com fama de perigosa, ela é quase um segredo, freqüentado mais pelo pessoal que pega onda do que por banhistas propriamente. Numa pesquisa recente sobre as melhores praias do Rio, ela nem sequer constava da lista. Achei o máximo. Me senti sócio de um clube fechado, de alguma maçonaria secreta que se comunica por olhares e sinais e que, uma vez em seu templo, se ajuda entre si, acendendo um cigarro, dando uma olhadinha nas coisas alheias, perguntando as horas. Tudo mais é discreto silêncio, recolhimento que nada tem de indiferença. É impressionante, mas pouco se fala na Praia do Diabo. E aos íntimos, sussurra-se.

Quem pousa ali ou imediatamente se deixa seduzir por essa espécie de austeridade ou então se manda, reclamando que "a praia é pequena", "não tem ninguém que eu conheço", "Não tem nem cigarro a varejo?"...

Vou lhe dizer uma coisa, leitor: morar no Posto Seis apenas pelo resultado de um trabalho digno e honesto e poder desfrutar essa paisagem de consciência limpa, despreocupadamente, é algo que budistas e espíritas chamariam de merecimento, resultado de sucessivas boas encarnações, um passo decisivo nos degraus da sabedoria.

Eu vou de bicicleta. Por isso, amo minha bicicleta. Da última vez que fomos ao Diabo, comprei pra ela um presente. Mulher gosta de enfeite e ciclista precisa de buzina. Buzina, não - que bicicleta não tem buzina. Ou melhor buzina de bicicleta não é buzina é aquela sineta, campainha ou seja lá que nome tenha que emite um trim-trim de passarinho que é a voz de todas as bicicletas, inconfundível ("aí vem uma bicicleta!", penso logo, desde a infância) e tão simpático.

Então comprei pra ela uma sineta dessas, escrito em cima, bem visível: "I Love My Bike", com um coração no lugar da palavra "love", como naquelas camisas de Nova Iorque. E é verdade, eu amo minha bicicleta. Uma menina em tom de elogio achou muito feminino. "Claro, ela é mulher...", eu respondi. E ela merecia o presente.

Agora está linda, completa. E voltamos depois para casa, nos divertindo, alertando os pedestres, sinalizando a beleza das moças, ou simplesmente entoando a esmo aquele trim-trim de bicicleta, como fazem os pássaros.

Porque eu, suspenso assim no ar, me equilibrando no vento em minha bicicleta, eu não deixo de ser uma espécie de pássaro.