17 de fevereiro de 2003
Oitavo andar

Moro no oitavo andar. Meu senso de superioridade se resume a este fato geográfico. Assisto à humanidade do alto e, vistos daqui, os homens são mais fortes e as mulheres mais bonitas, aparentemente imunes ao calor, à fome, às manchetes dos jornais, ilegíveis à distância. Caminham silenciosos e resolutos, como as palavras neste texto. São o que são, sem nenhum sentido oculto.

Aqueles, na fila da loteria, alinham ordeiramente suas esperanças de riqueza e vão, um a um, mergulhando no interior da loja para deixar nos guichês sua fé, sonhos que se traduzem em combinações de números, segundo uma lógica, ao mesmo tempo, íntima e comum: "Sonhar com rei dá leão...", dizia um antigo samba-enredo da Beija-Flor. Mas, nem sempre: a associação é livre e Deus, que é Acaso, escreve certo, por linhas tortas. O sujeito sonha com rei, joga na águia e ganha, movido pela intuição e contra todos os prognósticos.

Há também os trabalhadores da obra que me interdita a rua já faz uns dois meses. Os músculos rebrilham ao sol, cobertos de suor, num espetáculo de intensa beleza plástica. Moram presumidamente longe, ganham mal, trabalham duro, mas seus atos se revestem de uma dignidade que atravessa o tempo, impermeável a qualquer metáfora: constróem com suas mãos o mundo para impor à Natureza a ordem humana e doar aos outros o conforto que resultará de seu esforço: nas próximas chuvas, as águas já não invadirão mais as calçadas. Obrigado, anônimos senhores. No próximo verão, já não lembrarei de vós!

E, a medida que a manhã avança, começam a passar as moças a caminho do mar. Absortas, falsamente indiferentes, algumas com o celular pregado à orelha, em papos longos e inadiáveis. Me encanta essa urgência que põem em tudo, feita de certezas sem fundamento, idéias preconcebidas que pegamos de ouvido e que depois a vida tratará de desmentir. E daí? Sim, e daí? Expressão que é o passaporte para a eterna juventude. Lá vão elas alimentar o sol, ávido dessa paixão que exalam. E junto vão os moços, com quem compartilho a mesma admiração carregada de indisfarçável e justíssimo desejo.

Daqui do alto, a vida se relata na mansa fúria de seus dias. A dor que se resguarda por detrás de muitas das incontáveis janelas que me cercam talvez não resistisse ao simples debruçar-se nelas para assistir a este longo e interminável discurso do qual esta crônica é um mínimo e inexato parágrafo. "E daí?", diria a dor para si mesma, envergonhada e já exultante da liberdade tão facilmente conquistada. E ganharia a rua, a vida, em comunhão com o sol e o vento leste que espanta antecipadamente as nuvens que vêm do sul.