24 de março de 2003
Gato preguiçoso

Acordo cedo e fico tomando sol na cama, feito um gato preguiçoso, olhando o sol meio sonso no céu vacilante de nuvens que o vento leste promete varrer logo, logo... O mundo se acabando e eu aqui, gato egoísta, satisfeito de não poder fazer nada - nem contra, nem a favor; animal insignificante, amante do sol, das nuvens e do vento.

O ar está úmido ainda da manhã nascente e o animal insignificante fareja um cheiro longínquo de mar. Isso o excita e se não fosse tão gato preguiçoso haveria tempo de pegar a bicicleta e dar uma volta antes de começar a batucar no teclado a crônica que já começa a elaborar mentalmente.

Os indianos dizem que os animais não falam para não ter que trabalhar. Entendem tudo, mas não falam - e nem escrevem... Houve um tempo em minha vida em que andei convencido de que me bastava apenas pensar: escrever era já vaidade e ganância, inútil interrupção do fluxo de idéias que precisavam ser pensadas para se fixarem no ar como frutos que outros viriam colher... Louco gato preguiçoso viajando de olhos rútilos pelas ruas mais noturnas, a cabeça a mil, o coração a galope, anônimo animal pensante, fui...

O mundo se acabando, só porque o Bush resolveu parar de beber e ser um filho exemplar, e eu na cama, despido de qualquer sentimento trágico apenas pensando em você, em você, em você... Em ninguém... Em quem já foi, em quem ainda é, em quem será... Um álbum de fotografias, coleção de nomes, fragmentos de sonho...

Quem disse que não é possível não pensar em nada? Tão fácil... Não deixar que nenhuma idéia dure a ponto de se fixar e a mente possa dizer "é isto". Escuridão: basta fechar os olhos - e ainda que o sol tinja de laranja e vermelho é escuridão ainda. E silêncio: esse silêncio das ruas de manhã, onde os ruídos que há nunca chegam a ser nada, tão esparsos e fugazes...

É tão fácil não pensar em nada - e toda verdade disso se extrai... Mas quem quer saber? Quem quer saber onde começa a verdade? O mundo se acabando pelas mãos de um idiota e eu aqui, na cama, gato preguiçoso, animal insignificante, vivendo íntimas metafísicas que devolvo ao papel por dever de ofício e necessidade de salário... Senão, nem isso... A escuridão e o silêncio bastavam. Bastavam o vento, as nuvens e o sol. Bastavam minha bicicleta e você.