7 de abril de 2003
Em brancas nuvens

Deixei passar em brancas nuvens os noventa anos de Rubem Braga. Foi no dia 12 de janeiro, mas eu só vim a descobrir anteontem, ao reler umas crônicas dele de 1953 e ser subitamente tomado pela curiosidade de saber que idade tinha o cronista naquela época.

Não reparei se, em algum outro jornal, alguém chegou a lembrar. Noventa anos é uma data ingrata. Redonda, como exigem as comemorações, mas próxima demais do centenário que, além dos três dígitos, ainda oferece a garantia de não pegar a vítima ainda viva, o que evita desmentidos e correções.

Mas ter deixado passar em brancas nuvens o aniversário de Rubem não deixa de ser uma homenagem. O cronista adorava nuvens, sobretudo as muito brancas e volumosas, dessas que se movem lentas como navios e vão variando vagamente de forma, para o deleite dos olhos distraídos.

Acredito até que, no dia 12 de janeiro, alguma nuvem tenha desenhado o rosto do cronista lá no alto, bem nítido e, cá embaixo, uma ou outra criança tenha tentado em vão chamar a atenção dos adultos para o fenômeno. "Olha, mamãe! O rosto de um velhinho no céu!". "É o vovô, filhinho", terá respondido a mãe sem conferir, mas já encantada com o que lhe pareceu um sinal inequívoco da vocação poética do filho.

Não deixa de ter razão a mãe. A coisa começa assim, pela leitura das nuvens. Das nuvens, das pedras da calçada, das manchas nas paredes, das folhas que o vento espalha no chão. "Esse é dos meus", terá pensado Rubem Braga, confirmando o presságio da mãe. Do jeito que era, avesso a estranhos como um náufrago satisfeito, o cronista certamente não terá lamentado que lhe deixassem passar os noventa anos em brancas nuvens.

Mas não custa acrescentar um céu azul, um cintilante sol de janeiro e a sombra generosa das amendoeiras. Um vento leste, sutilíssimo, mas persistente, combina com as nuvens e completa a mínima paisagem.

Uma infinidade de ínfimos detalhes podem ir sendo acrescentados aos poucos, tarefa para mais dez anos de carinhoso garimpo em suas crônicas, até formar um quadro que, bem ao gosto do velho Braga (permita-me chamá-lo assim, com injustificada intimidade), diria tudo, prescindindo de palavras.

Borboleta amarela, sabiá, cajus contrastando com jabuticabas, os olhos muito azuis de uma certa mulher, o contorno de seu corpo sob o vestido de seda, um canivete afiado, um ou outro retrato onde não se distinguem bem os rostos, a máquina de escrever, um maço de cigarros... E, envolvendo cada coisa, unindo todas elas, o silêncio.