14 de abril de 2003
Felicidade de pedra

Minha felicidade às vezes me envergonha. Não é uma felicidade exuberante, de quem ficou rico de repente ou sempre deu certo na vida. É uma felicidade pequena, simples, obstinada - de pedra. Feliz até da vergonha que às vezes me causa ao contrastar-se com os horrores do mundo e a infelicidade alheia.

Olho no espelho: tenho o corpo todo no lugar, saúde boa, a carne ilesa da violência cotidiana que semeia a dor ao acaso das balas. A alma também está lá, aconchegada a este corpo, mais íntima dele com o passar dos anos.

Olho ao redor: tenho pouco, mas não me falta nada. Preciso pintar a casa, comprar outra estante de livros, dar um jeito em uma infinidade de pequenos detalhes que só reparo quando tenho visita ou quando você vem e traz um pote para colocar os biscoitos e arruma um lugar melhor para a luminária ao pé da cama.

Olho para dentro: a generosidade, a dedicação, a coragem não fazem parte do repertório das minhas qualidades. Apenas não sou mal - o que já é muito - nem procuro a chance de roubar ou humilhar os outros. Não é a ganância ou a inveja que me movem. Isso talvez me faça um pouco menos egoísta. Só um pouco. Ou seja um outro tipo de egoísmo, que é mais isolamento do que indiferença. Não sei... Sinto um amargo desprezo por políticos, burocratas e toda a canalha que os serve, satisfeita. Sinto uma vaga e sincera compaixão por qualquer um que, de algum modo, tenha perdido o rumo. É fácil perder o rumo. Mas nada justifica o ladrão do dinheiro público.

Olho lá fora: estava com saudades dessas manhãs de outono, dessa luz cinza-azulada e sem sombras feita de nuvens que se adensam, lentas, enquanto um vento indeciso, meio norte, meio leste, tenta varrê-las para abrir o caminho do sol. Esse outono nada europeu, são os melhores dias do verão do Rio.

Olho adiante: meu amigo Carlos Newton lembra o verso de Gonzaguinha quando comento, em tom de confidência, a primeira frase desta crônica, que já me vinha ressoando na cabeça fazia semanas: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz". Mais vale um amigo que uma estante de livros. E amigos eu tenho, ainda que me falte a estante.

Pode deixar, Carlos Newton, que a vergonha que a minha felicidade às vezes me causa não tem nada a ver com culpa. É indignação e perplexidade. Você também sente. Todo mundo que presta, sente. Está na cara que podia ser melhor, bem melhor. E será, quando a indignação e a perplexidade de cada um tornar-se a revolta de todos.