19 de maio de 2003
Alvorada

A manhã silenciosa e fria não tem cara de dia nenhum: sábado, domingo, segunda ou sexta, os dias sempre começam iguais. A cidade imensa é ainda uma vila tímida recendendo a sonho e preguiça. Tudo vai se alongando aos poucos, em movimentos lentos e vacilantes: a luz, as nuvens, os músculos embaixo das cobertas. Passarinhos e despertadores misturam-se, longínquos, ao rumor oceânico dos carros e o cheiro do café e do pão aconchegam-se no ar, imprescindíveis.

O animal desperto acostuma-se à novidade das coisas renascentes, ainda descoladas de seus nomes. As palavras virão depois, para rearticular a rude máquina de produzir ilusão e história. Logo serei Antonio, Antonio Caetano, ente provisório que envelhece, definido por números diversos: idade, peso, altura, endereço, telefone, cpf, identidade, conta em banco, horários e prazos.

Antes, usufruo desta íntima comunhão com o mundo, sem nostalgia ou prévia melancolia: quando chegar a hora, estarei pronto. Só a minha fé ficará aqui, entre as coisas mudas da alvorada.

Todo dia o mundo amanhece novo. A vida é seu único sentido e em si mesmo o mundo se basta. Nisto se resume toda sabedoria. Mas, dito assim, é fórmula que logo se esquece. É preciso senti-lo com o corpo todo (que é quando a alma existe). A esta hora, é mais fácil.

Talvez o leitor se surpreenda, mas é mais fácil também quando o dinheiro nos falta e é preciso reduzir o consumo ao mínimo. É uma satisfação descobrir que se pode viver sem o que antes se julgava necessário. O que parecia humilhante - ter de renunciar, mesmo que temporariamente, ao que se supunha a recompensa pelo trabalho - acaba por mostrar que humilhante era a condição anterior, de escravo de hábitos compensatórios. Quanto menos se tem, mais livre se é. Nossos senhores não sabem o risco que correm ao nos acostumar com a pobreza.