2 de junho de 2003
Tudo é possível

Acordo a mil, a cabeça cheia de idéias. Vontade de mudar tudo, de inventar, do dia para a noite, o novo, o nunca visto - ou o esquecido. Dá no mesmo. "Tudo é possível". O que significa dizer que tudo já está aí, à espera: Deus cria, a gente inventa. Claro, haverá sempre alguém para dizer: "Não, isto é impossível". É a voz da inércia, da conservação. Faça o teste: pergunte a qualquer um se é possível ver o que está acontecendo agora em Pequim e o primeiro impulso do sujeito será responder "não", até lembrar que já existe a televisão - sem falar na Internet. "Tudo é possível" - é preciso repetir, escrever nas paredes em letras enormes, até que a idéia se estabeleça na cabeça das pessoas como uma espécie de fé, ou melhor, como a forma mais genuína da fé.

Há obviamente o erro. Mas o vaidoso não vê o erro, que é seu, porque é seu, e diz: "É impossível". Estamos cercados de objetos "impossíveis", mas a retórica da inércia exercerá sempre seu poder de sedução sobre os homens.

A maioria teme a mudança, o risco. "Trocar o certo pelo duvidoso" - como se existisse algo de certo, de definitivo, neste mundo. No entanto, conservar é tão necessário quanto criar. Idealmente, criação e conservação são forças complementares: uma sem a outra degeneram em loucura ou banalidade. O conflito se instala por uma razão essencial: a distribuição das forças é desigual. Há sempre mais conservação do que criação. O criador vitorioso de hoje será um conservador de sua criação amanhã.

Na impossibilidade de uma solução, resta repetir "Tudo é possível", até que o conceito se fixe como um princípio ético - que se não resolve a tensão, ao menos a ameniza.

O leitor me desculpe esta crônica tão chata, mas é que não consigo pensar em outra coisa, tomado que estou pela idéia da mudança.