16 de junho de 2003
Sob o signo da mudança

O sujeito se acostuma a ver seu jornal todo dia nas bancas e acaba perdendo a dimensão de que jornal é coisa plástica e quase abstrata: tinta sobre o papel. Diagramação e texto. Literatura e arte gráfica. Só.

Tecnicamente, quase não há limites para a imaginação do editor, desde que se preserve a regra única de precisão e clareza. Nesse sentido, a identidade gráfica de um jornal é quase uma ilusão de quem o lê e de quem o edita: na prática, o jornal nasce, de novo novo, dia-a-dia. Justamente porque é fonte primária da História, o compromisso do jornal é com o instante. Esta ambigüidade entre História e instante é a razão de ser do jornal. Usando o cinema como metáfora, cada edição é um fotograma que o tempo desdobrará em filme.

O leitor há de me perdoar o narigão de cera, todo esse papo furado inicial, mas é que há semanas não penso em outra coisa senão em jornal. De coisas práticas, como ajudar a escolher entre uma infinidade de tipos de letra aquele que pareça mais adequado, até a abstrações como estas que abriram a crônica e têm servido quase como uma distração para a mente que se recusa a mudar de assunto. Resta ao pobre proprietário desse cérebro obsessivo mudar o foco, saltar do terreno das decisões técnicas para o devaneio.

Mudança. Há semanas a TRIBUNA DA IMPRENSA vive sob o signo febril da mudança. Respira-se na redação um ar denso de idéias logo traduzidas em textos que máquinas colossais transformam em páginas e páginas, numa velocidade industrial que desafia a imaginação e o olho.

A mudança contamina a todos. As intensidades e reações variam segundo a índole de cada um, é claro, mas ninguém escapa imune: estamos todos grávidos de idéias. Arriscaria mesmo dizer que o leitor tem perdido o melhor do jornal que é exatamente este fazer. Grita-se, fuma-se, ri-se, mergulha-se em concentradíssimos silêncios - e tudo são idéias. É a cozinha, como chamamos, com absoluta precisão.

"Tudo é possível" tem sido a nossa máxima, como escrevi aqui um dia desses. Viramos, contra todos os presságios, quase que de um dia para o outro, uma redação de inventores. Nosso único critério é o texto, o bom texto. Preciso, claro, enxuto. Nenhuma outra regra, nenhum outro compromisso. Liberdade para quem tem talento. E talento é o que não falta. Aqui dentro e lá fora. Quem duvida, que continue comprando a TRIBUNA DA IMPRENSA.

Este espaço, por exemplo, será ocupado diariamente por alguns dos melhores cronistas dos muitos que andam por aí. Clarah Averbruck, Fausto Fawcett, TT Catalão, Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio já confirmaram presença. Outros já estão convidados. Supresas. E haverá espaço para todos. Se não houver, a gente cria. Dá-se um jeito. O que importa é dar voz ao talento. O resto, a diagramação resolve.

Um amigo me disse uma vez que todo grande invento foi primeiro sonho, depois delírio de louco, verso de poeta, equação de matemático até o engenheiro ou o arquiteto fazer dessa idéia, invento.

Loucos, poetas, matemáticos e engenheiros - somos um pouco de cada um desses quando fazemos jornal. Sir Charles Newton, que vem a ser sobrinho tataraneto de Sir Isaac Newton, formulou com felicidade a "Lei da Termodinâmica Jornalística", também conhecida como "Lei de Newton": "Uma jornal é uma fórmula que combina Emoção, Inteligência, Ousadia e Elegância". Não precisa dizer mais nada.

Não estaremos amarrados por projetos gráficos milionários trazidos de fora, nem seremos tolhidos pelo medo de errar. Estamos criando tudo aqui, juntos. Errar é humano. Corrigir é jornalístico. Houvesse mais erros nos jornais e menos má fé e as coisas seriam outras.