21 de julho de 2003
As mulheres e o casamento

Os homens reclamam que as mulheres só pensam em casar. Não é bem isso. As mulheres só pensam em ter filhos com segurança. Elementar. Como só o casamento lhe garante direitos que não dependem de promessas, elas querem casar. Homens fazem filhos e somem no mundo. "Vou comprar cigarros" - e nunca mais. História comum, banal.

Os homens gostam de tirar uma onda, "as mulheres só pensam em casar", como se esse desejo fosse alguma espécie de impulso genético liberticida, quando o que elas querem mesmo é a garantia de uma pensão para os filhos depois que aquele sujeitinho meio gordo que só pensa em Flamengo e cerveja com os amigos sair para comprar cigarros.

Enfim, as mulheres só pensam em casar porque os homens não têm palavra. Não que as mulheres tenham, mas quando se trata de filhos, o problema é delas. Elas sabem disso. E gostam. Nasceram para isso, ter filhos. Reprodução? Dito assim, fica a impressão que o útero é uma máquina de xerox. A palavra certa é Criação, com c maiúsculo mesmo. Cada sujeitinho que nasce é um Adão potencial que renova nossas esperanças de que um dia esta zona venha a dar certo. Cada um diferente do outro, minuciosamente diferente - a menos que sejam gêmeos. Reprodução..?

O mais engraçado é que guardamos a palavra criação para os artistas em geral. E bota "em geral" nisso. Quer dizer, a mulher passa nove meses gestando um exemplar absolutamente único e original do gênero humano e isso se chama "reprodução". Um malandro rabisca uns traços coloridos numa tela ou alinha umas frases de sentido duvidoso no papel e isso se chama "criação" - ainda que os críticos amigos venham a chamar o malandro de "Pollock brasileiro" ou "Joyce do Leblon". Criação..?

Cabe aqui um parênteses. Não pense o leitor que desvalorizo a arte. Pelo contrário. Acredito piamente que o código genético se escreve com palavras. O tal código não muta segundo as necessidades determinadas pela experiência? E como é que o Homem registra suas experiências? Com palavras e imagens. Aquele nosso Adãozinho potencial do parágrafo anterior vai precisar aprender o que é ser Homem...

Mas, mesmo assim, a "criação artística" é ainda reprodução, rearrumação, representação, "re" qualquer coisa, sempre "re". Sobretudo se comparado à maternidade. Enfim, em termos de complexidade, o mais humilde e indesejado bebê deixa até o "Hamlet" no chinelo.

Onde quero chegar com esta história toda? É que nós, os homens, nos iludimos pensando que as mulheres nos desejam como maridos. Engano. Elas nos desejam como pais de seus filhos. Nem que para isso tenham de recorrer a "homens de saia": o padre o juiz.

Filhos é o que elas querem. E logo! Aí começa outro problema. Os homens, se pudessem, adiariam ao máximo a paternidade. Mas toda mulher sabe, o corpo delas sabe, que quanto mais cedo tiverem filhos, melhor. Logo, não tem jeito: casamento neles!

Enfim, os homens reclamam, mas ainda a maior homenagem que uma mulher pode prestar a um homem é querer casar com ele. Ter filhos dele. Se depois, a gente cumprir bem o papel, elas até liberam a cervejinha e o futebol.